Título: Obama e seus inimigos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 22/01/2013, Notas e informações, p. A3

Completados ontem os ritos da segunda posse do presidente Barack Obama, os Estados Unidos - e o mundo - voltam-se para o calendário de confrontos entre o democrata e a oposição republicana, que controla a Câmara dos Representantes, com 233 cadeiras em 435, e detém no Senado uma substancial minoria (45 em 100). Sob o domínio da facção mais intratável do fundamentalismo conservador americano, todas as decisões relevantes tomadas nos últimos quatro anos pelo partido que já levou à Casa Branca gigantes políticos como Abraham Lincoln e modelos de moderação como Dwight Eisenhower se pautaram por um único objetivo: impedir a reeleição do primeiro presidente negro do país.

Batida nas urnas de novembro, a oposição teve um lampejo de inteli­gência na virada do ano, ao fechar com Obama um acordo de última ho­ra que, embora precário, poupou os EUA de cair no chamado abismo fis­cal, com efeitos letais sobre a recupe­ração da economia nacional do co­lapso financeiro de 2008. Dois ou­tros momentos decisivos para o no­vo governo já assomam no cronograma de Washington. Em algum dia de fevereiro, a dívida pública americana baterá no teto de US$ 16,4 trilhões (ante um PIB da ordem de US$ 15 tri­lhões). Obama quer elevar esse limi­te a um valor ainda indeterminado, bem como ter a prerrogativa de tor­nar a fazê-lo sempre que julgar ne­cessário. Os republicanos aceitam apenas um aumento válido por três meses.

Se a dívida furar o teto, o governo será obrigado a suspender os paga­mentos a seus financiadores, fornece­dores e servidores - um vexame inédito. (O mais perto que se chegou disso foi o fechamento por alguns dias da administração federal no pri­meiro mandato do presidente Clinton.) Enquanto durar o impasse, a Casa Branca ficará de mãos atadas pa­ra implementar novos projetos. Cien­tes das consequências do cataclismo para o resgate da imagem do partido, a liderança republicana na Câmara ensaiou um recuo da posição intran­sigente que adotara em relação à ma­téria. Mas convém não subestimar a nova meta dos ultrarradicais: já que Obama se reelegeu, pelo menos que não ingresse no panteão dos presi­dentes que marcaram época.

O futuro do déficit público é outra batalha anunciada. No fim de feverei­ro expira o acordo sobre gastos fede­rais. Sem um novo entendimento, o Executivo será obrigado a eliminar US$ 560 bilhões em dispêndios até 2022 (US$ 100 bilhões já este ano). Os principais atingidos serão os pro­gramas sociais, mas tampouco o sis­tema de defesa ficará imune à com­pulsão republicana pela tesoura. En­tre a reeleição e a posse, a aversão da direita ao "socialista" Obama encon­trou um motivo a mais para se nu­trir: a decisão do presidente, na estei­ra da chacina de Newtown, de anun­ciar, pela primeira vez nos EUA, um pacote de medidas - algumas delas a serem votadas pelo Congresso em re­gime de urgência - para controlar o comércio de armas. Um senador texano ligado ao Tea Party prega o impeachment do presidente por isso.

Na agenda doméstica de Obama para o seu termo final, figuram duas questões em relação às quais as chan­ces de obstrução republicana dife­rem. A oposição pouco poderá fazer para impedir a regulamentação da lei de reforma da saúde, a entrar em vi­gor no próximo ano, cuja aprovação em 2010 foi um marco histórico e se­rá o maior legado da era Obama.

Mas, se o partido continuar "com a cabeça enfiada na areia e ignorar o fa­to de que o país está mudando", co­mo adverte o ativista (republicano) Ralph Reed, poderá aguar a reforma das leis de imigração desejada pelo presidente. Trabalham e pagam im­postos no país cerca de 11 milhões de estrangeiros ilegais (ou "indocumen­tados"), a grande maioria latino-ame-ricanos. Em novembro, 2 em cada 3 eleitores ditos "latinos" votaram em Obama.

Na frente externa, a oposição tem pouco a declarar sobre a nova priori­dade asiática da diplomacia america­na, um híbrido de contenção e coope­ração com a China. Mas fará um baru­lho ensurdecedor se Obama for "sua­ve" com o Irã e pressionar Israel para valer na questão palestina. O Oriente Médio é o principal desafio de Oba­ma no globo. Passa por ali a ida de Obama para a história - e a volta dos republicanos à razão.