Título: O vale-tudo dos partidos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 28/01/2013, Notas e informações, p. A3

Em 1988, ano da promulgação da Constituição pelo Congresso Constituinte, 61% dos brasileiros ouvidos em pesquisa de opinião pública do Ibope de­clararam ter preferência por um parti­do político. E apenas 38% se disse­ram apartidários, ou seja, sem simpa­tia por nenhuma das siglas partidá­rias que disputavam à época seu vo­to. No fim de 2012,24 anos depois, is­so se inverteu: em levantamento fei­to por encomenda do Estado, apenas 44% disseram preferir alguma sigla partidária, enquanto 56% não destaca­ram nenhuma. Nessa perda de empatia, nenhum partido se salvou: hoje há menos petistas, tucanos, peemedebistas, democratas do que em 2007.

A primeira explicação para esse de­clínio pode ser encontrada na frus­tração da cidadania quanto ao de­sempenho das agremiações partidá­rias. "Fiquei muito decepcionada. Desde 2005, só voto nulo. Não acre­dito em nenhum partido, apesar de existirem pessoas que respeito na po­lítica", disse a escritora e socióloga Ivana Arruda Leite.

Esta manifestação de descrença não é isolada. Quem duvidar poderá compulsar o total de eleitores que de­cidiram não sufragar nenhum candi­dato ou partido nas eleições de 2012. Com uma abstenção de 16,41% dos eleitores em todo o País e altos índi­ces de votos nulos e brancos, consi­derados inválidos, eles somaram mais de 35 milhões de votos não con­tabilizados no cômputo final. Este to­tal representa 25%, ou seja, um quar­to dos eleitores. Somente em São Paulo, mais de 2,4 milhões de votos, entre brancos, nulos e abstenções, deixaram de ser computados no re­sultado final pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O desencanto da cidadania pela ati­vidade partidária chegou ao auge no ano passado, a maior parte do qual esteve sob o impacto da transmissão do julgamento do escândalo do mensalão pelo Supremo Tribunal Fede­ral (STF). Durante o julgamento, fo­ram expostas as vísceras da corrup­ção na política, tendo como princi­pal alvo as relações espúrias entre partidos e o Estado. Os podres reve­lados no julgamento levaram à con­denação figurões das bancadas da ba­se governista: dos Partidos dos Tra­balhadores (PT), Progressista (PP), da República (PR), do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e Trabalhista Brasileiro (PTB).

Este fator, contudo, não basta para explicar o esvaziamento da simpatia partidária. Afinal, os condenados mais importantes no processo foram dirigentes do PT, mas este se man­tém no topo da preferência do eleito­rado nacional com 24%. Obteve mui­to menos citações do que no último ano dos dois governos Lula (2010), quando o partido bateu o recorde de 41%, o que justifica a eleição de sua candidata, Dilma Rousseff. Mas, mes­mo tendo caído quase pela metade, o prestígio mantido pelo PT, em pleno ano do mensalão, ainda representa quatro vezes o do segundo colocado, o PMDB (6%), seu principal aliado no governo, e do terceiro, o PSDB, maior partido da oposição, com 5%. O desprestígio dos tucanos é ainda mais impressionante ao se analisa­rem apenas os índices registrados no Sudeste, onde o partido sempre teve mais força, o que se comprova pela ocupação dos governos de dois Esta­dos importantes, São Paulo e Minas: em 1995,14% dos eleitores o citaram como preferido. Em outubro de 2012, este número caiu pela metade: 7%. O declínio vertiginoso revela, de um la­do, um certo cansaço do eleitorado com a sucessão de gestões do PSDB e também constata a ausência de uma política clara e coerente que possa servir de alternativa à do PT e seus aliados, vencedores das três últimas eleições federais.

Deixando de lado as características de cada sigla, há uma explicação gené­rica para a queda geral da preferência do eleitor por cada uma delas. "Parti­dos não promovem mais grandes de­bates. Só se apresentam para a socie­dade em período de eleição. Deixa­ram de ser referência. Não existe mais mobilização, a não ser a defesa do interesse do próprio partido", dis­se Marco Antônio Teixeira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Outra justificativa a ser levada em conta para entender o desencanto com os partidos foi definida pelo pu­blicitário Daniel Palma ao criticar o "tudo pelo poder". O cerne da políti­ca é a luta pelo poder, mas o cidadão não aceita o vale-tudo hoje adotado como regra geral.