Título: Equipe econômica busca dólar a R$ 2, sem muita oscilação
Autor: Valle, Sabrina
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/02/2013, Economia, p. B4

Para dar previsibilidade à indústria e não prejudicar os exportadores, governo vai intervir no mercado para evitar distorções

BRASÍLIA

Se dependesse só da equipe econômica do governo federal, o dólar passaria todo o ano de 2013 num nível muito próximo do atual, oscilando em tomo de R$ 2. Depois do esforço feito em 2012, quando a cotação da moeda americana saltou mais de 30% no ano, subindo de R$ 1,58 para mais de R$ 2,11, o governo entende que, agora, o dólar deve oscilar menos.

O regime cambial brasileiro é "sujo", como admitiu publicamente na semana passada o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augástin.. Isso quer dizer que o dólar pode sim se mover livremente, más não de forma plena: o governo intervém diretamente no mercado para reduzir o que considera "excessos"."

"A moeda está mais favorável aos exportadores e, principalmente menos vantajosa para os bens importados que estavam entrando artificialmente baratos no País nos últimos anos", disse uma fonte qualificada da equipe econômica. "Agora não dá para a moeda ficar mexendo muito.

O ano de 2012 foi da guerra, agora é hora da paz. A indústria precisa de previsibilidade." Segundo uma fonte do Palácio do Planalto, o governo entende que o câmbio "já está favorável", mas agora precisa ser um pouco mais previsível. As intervenções no mercado vão continuar, seja para corrigir o que o governo chama de "distorções" (quando o dólar se valoriza ou se desvaloriza muito rapidamente em curto espaço de tempo), seja para evitar que a cotação da moeda responda a especulações do mercado financeiro.

Meta. O objetivo do governo é fazer com que os investimentos . produtivos deslanchem. Na avaliação dos técnicos, ps empresários, especialmente os da indústria de transformação, ainda não colocaram em suas planilhas de custos o cenário atual, de juros mais baixos e uma cotação do dólar próxima a R$ 2.

Na semana passada, o nível desejado pelo governo federal para a moeda americana se consolidou, após idas e vindas entre o governo e o mercado e entre o próprio governo. Na segunda-feira, o dóla rvoltou a ser negociado abaixo de R$ 2 pela primeira vez desde o início de junho.

O movimento se iniciou depois que o Banco Central vendeu dólares no mercado, por meio da oferta de contratos no mercado : futuro. Diante do incômodo do governo com a inflação persistentemente alta, o mercado leu essa operação do BC como o retomo dapolítica de "âncora cambial", isto é, quando a valorizaição do real é usada para reduzir os preços dos bens importados.

Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou que essa fosse a estratégia do governo. Rapidamente, o dólar retomou o nível de R$ 2, onde está desde então.

Moderada. De modo geral, a maior parte dos economistas do governo federal entende que a desvalorização do real ao longo do ano passado foi moderada. O termo foi repetido ao Estado por autoridades da equipe econômica e também por interlocutores da presidente Dilmano Planalto.

A ideia de "desvalorização moderada" também pode ser encontrada no primeiro balanço e xecutivo do Plano Brasil Maior, feito em novembro, quando o dólar era trocado por cerca de R$ 2,05.

Empenho. A desvalorização do real em 2012 e sua manutenção em um nível considerado, por ! ora, adequado em relação ao dólar teve empenho total da presidente Dilma Rousseff. No ano passado, por exemplo, numa das raras sessões em que o dólar caiu abaixo de R$ 2 depois de abril, quando esse nível foi alcançado, Dilma se envolveu diretamente com seus ministros.

Era sexta-feira, 29 de junho, e o dólar estava, há três dias, oscilando entre R$1,97 e R$1,99. Naquele dia, o ministro Guido Mantega almoçava em São Paulo comum dos conselheiros econômicos do governo federal. Dilma ligou para o ministro, contrariada com a cotação naquele momento, e o questionou sobre as razões daquele movimento. Na semana seguinte, o Banco Centrai retomou suas compras da moeda americana, estimulando a desvalorização do real.

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Aldo Mendes, chegou a afirmar ao Estado, um dia depois, que o dólar abaixo de R$ 2 poderia "não ser bom para a indústria". No mesmo dia em que concedeu a entrevista, a moeda americana mudou de trajetória e,por sete meses consecutivos, nunca mais ficou abaixo deR$ 2,/j.v.