Título: Debate sobre guerra cambial opõe países ricos e emergentes no G-20
Autor: Trevisan, Cláudia
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/02/2013, Economia, p. B3
O risco de uma guerra cambial de proporções globais voltou a estar no centro da agenda do G-20 e provocou divisão ontem entre representantes de nações desenvolvidas e emergentes, que criticaram políticas monetárias expansionistas cujo efeito é a desvalorização de moedas de países ricos.
Os ministros de Finanças do grupo se reúnem hoje em Moscou - o presidente russo, Vladi- mir Putin, será o anfitrião do encontro - sob o impacto das medidas adotadas pelo Japão para tentar ressuscitar sua economia, que provocaram depreciação de 17% do iene em relação ao dólar nos últimos três meses.
Na opinião de Paulo Nogueira Batista Júnior, diretor executivo do Brasil e mais dez países no FMI, a possibilidade de uma corrida de depreciações cambiais é maior hoje do que em 2010, quando o ministro Guido Mantega cunhou a expressão "guerra cambial" no âmbito do G-20.
"Os países estão tentando resolver suas crises domésticas exportando suas dificuldades por meio do câmbio", disse Nogueira, ressaltando que falava a título pessoal.
A desvalorização de moedas favorece as exportações, o que pode auxiliar no processo de recuperação de economias em dificuldades.
A queixa dos emergentes foi apresentada em encontro preparatório da reunião de ministros realizado ontem na capital russa. Os representantes dos países ricos responderam que a intenção das medidas não é a desvalorização cambial, mas a reativação de economias estagnadas.
Comunicado. O G-7, clube das nações mais industrializadas do mundo, provocou um rebuliço no mercado de câmbio nos últimos dois dias, depois de divulgar na quarta-feira comunicado no qual afirmava que suas políticas monetária e fiscal têm objetivos domésticos e não buscam alcançar taxas de câmbio específicas.
Representantes do grupo deram interpretações contraditórias e anônimas ao comunicado, alguns dizendo que era um ataque e outros, uma defesa do Japão. Em resposta à volatilidade, o ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov, defendeu em entrevista à TV Bloomberg que o comunicado final do G20 seja mais "específico" que os anteriores na condenação da guerra cambial. Nos documentos divulgados anteriormente, os países se comprometem a evitar a "desvalorização competitiva de suas moedas".
Os ministros também vão discutir a questão fiscal e a velocidade com que países endividados devem reduzir seus déficits e o tamanho de suas dívidas. A divisão nessa área não opõe emergentes e desenvolvidos, mas sim grupos de países que defendem a manutenção de medidas pró-crescimento, como o Brasil, e os que são favoráveis a cortes de gastos que produzam rápida redução do déficit, ainda que isso sacrifique a expansão de curto prazo.
Novos temas. Outros temas que estão na agenda são a reforma do sistema de quotas do FMI, com aumento do peso dos países emergentes, e o desenvolvimento de mecanismos de financiamento de longo prazo, especialmente para projetos de infraestrutura.
Com a crise global de 2008, os bancos reduziram sua atuação como fontes de financiamento. Para compensar a queda, a economia mundial precisa criar mecanismos novos, que canalizem recursos para investimentos cujo retorno não é imediato. Essa é uma das prioridades da presidência da Rússia no G20, que começa oficialmente hoje.