Título: Não se governa de um palanque
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Fonte: O Estado de São Paulo, 22/02/2013, Notas e informações, p. A3

Uma das críticas re­correntes e mais contundentes que até notórios simpatizantes como Frei Betto fazem ao Par­tido dos Trabalha­dores é a de que, após chegar ao Palácio do Planalto, em 2003, o partido passou a priori­zar seu ambicioso projeto de perpe­tuação no poder, a ele condicionan­do o projeto de governo. Na última quarta-feira, na festa promovida pa­ra comemorar "o decênio que mu­dou o Brasil", Luiz Inácio Lula da Sil­va- o que é natural - e Dilma Rousseff - o que é lamentável - demons­traram acima de qualquer dúvida que estão mais preocupados com as urnas do que com a solução dos cres­centes problemas do País. A festa, minuciosamente planejada pelo marqueteiro oficial dos petistas, João Santana, serviu de palanque para o lançamento, por Lula, da candidatu­ra de Dilma Rousseff à reeleição, daqui a um ano e oito meses. E a presi­dente da República cumpriu disciplinadamente o papel que o roteiro da festa lhe reservava. Com um discurso populista e sectário, inadequado para quem não deixa de ser chefe de governo e de Estado nem mesmo num evento partidário, Dilma Rous­seff sinalizou que daqui para a frente, até outubro de 2014, será sempre mais candidata do que presidente.

Ao antecipar o calendário eleitoral e comunicar ao País que sua pupila vai disputar a reeleição, Lula de­monstrou que, ao contrário do que seu tom triunfal sugere, sabe que a vitória em 2014 não são favas conta­das, principalmente por conta das in­certezas de uma conjuntura econô­mica que, se até recentemente era fa­vorável, agora é uma grande incógni­ta no médio prazo. Por essa razão tentará o Partido dos Trabalhado­res, o mais cedo possível, "tomar conta" da cena eleitoral e consolidar a imagem da presidente Dilma Rous­seff com, mais uma vez, a irrecusá­vel indicação do Grande Chefe. Em circunstâncias normais, esse seria um problema do Partido dos Trabalhadores, que os eleitores resolve­riam nas urnas.

Ocorre que quem está genuina­mente preocupado com o futuro do País não pode deixar de consta­tar que o partido hegemônico no âmbito federal opta claramente por se aproveitar das dificuldades nacionais - que se acumularam nos últimos dois anos -, em vez de su­perá-las em benefício de todos os brasileiros.

Pois é isso que ocorre quando os programas governamentais passam a ser subordinados aos interesses eleitorais, sempre imediatos. Não se governa de cima do palanque. Buscar soluções para questões fundamentais no âmbito da educação, saúde, infraestrutura, segurança, etc., implica frequentemente a pres­crição e a aplicação de remédios amargos que só rendem dividendos políticos a longo prazo, provavel­mente muito depois da próxima elei­ção. A presidente Dilma faria muito melhor, portanto, se, em vez de ves­tir vermelho e recitar num palanque as frases de efeito que lhe são dita­das por seu marqueteiro, se dedicas­se a governar bem, que é o que dela se espera.

Mas na festança petista, realizada nas instalações de um hotel de São Paulo, os militantes em geral ti­nham mesmo muito o que comemo­rar, depois de 10 anos no poder, nu­ma máquina estatal aparelhada co­mo nunca antes na história deste país. Um aparelhamento, justiça se­ja feita, compartilhado com um enor­me arco heterogêneo de alianças, de­vidamente representado no palan­que por caciques partidários que iam desde os "faxinados" ex-ministros Carlos Lupi (PDT) e Alfredo Nascimento (PR) até o neodilmista Gilberto Kassab (PSD), saudado pe­la platéia com sonora vaia. Compa­nhias, até para alguns petistas, um tanto indigestas. Mas, como expli­cou Lula, "ora, não é para casar!".

A cereja do bolo servido na festa petista foi a participação de mensaleiros condenados pelos mais varia­dos crimes: José Dirceu, José Genoino e João Paulo Cunha. Foi-lhes es­tritamente recomendada uma parti­cipação discreta, o que os manteve fora do palanque, mas não os privou de efusivas manifestações de apreço e consideração.

Enquanto isso, a oposição conti­nua em obsequioso silêncio, quebra­do pelo solitário discurso de críticas ao governo feito pelo senador Aécio Neves na tarde de quarta-feira. Foi pouco, muito pouco.