Título: Estudantes protestam e exigem ver Chávez
Autor: Lameirinhas, Roberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/02/2013, Internacional, p. A15

O chavismo e a oposição estão nas ruas de Caracas. Um gru­po de aproximadamente 30 es­tudantes acorrentou-se na noi­te de terça-feira na frente da sede da Magistratura, na Ave­nida Francisco de Miranda, no distrito de Chacao, exigindo "ver" o presidente venezuela­no, Hugo Chávez.

Ontem pela manhã, em outro ponto da cidade, na Avenida San Martin, milhares de chavistas concentraram-se num ato para lembrar os 24 anos do "caracaço", a série de distúrbios, saques e protestos antigoverno que dei­xou ao menos 300 mortos.

Diante do silêncio que se man­tém sobre a saúde de Chávez, os estudantes ligados à oposição ve­nezuelana chegaram a paralisar o tráfego na Francisco de Miran­da, uma das principais vias da ci­dade, e foram reprimidos por sol­dados da Guarda Nacional, que utilizaram cassetetes, gás lacri­mogêneo e balas de borracha pa­ra liberar a pista. O mesmo gru­po tinha promovido um ato pare­cido duas semanas atrás, quan­do se acorrentaram na fachada da Embaixada de Cuba em Cara­cas, quando também exigiam uma "prova de vida" de Chávez, então internado num hospital de Havana.

"Vamos manter nossa mobili­zação até que tenhamos notícias sobre a situação do presidente e, se necessário, levaremos o protes­to até o hospital militar", declarou o estudante da Universidade Andrés Bello Carlos Briceño. Os membros do protesto também exigem a libertação de um líder estudantil preso na véspera em ra­zão do tumulto na manifestação na frente da embaixada. "Adverti­mos o governo: libertem José Antonio Peralta. Se não o liberta­rem, seguiremos nos manifestan­do até as ultimas consequências."

A prisão de Peralta, estudante da Universidade de Los Andes, de 30 anos, foi anunciada na vés­pera pelo ministro do Interior e Justiça da Venezuela, Néstor Re- verol. Imagens gravadas pela emissora estatal VTV mostra­ram o estudante tentando arran­car o marca-passo de Román Toplack, de 69 anos, que discutiu com os estudantes durante uma entrevista coletiva na frente da embaixada.

Por seu lado, os chavistas con­verteram a manifestação pelos 24 anos do chamado "caracaçõ" em um ato de apoio irrestrito ao presidente. "Graças ao presiden­te Chávez, podemos ter a certe­za de que o que aconteceu em 1989 nunca mais acontecerá na Venezuela", declarou o militan­te do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) Juan Luis Ve­ra. A prolongada ausência do líder bolivariano não é considera­da um problema para seus parti­dários. "Ele está recuperando sua saúde e descansando para po­der levar adiante sua revolução" disse Vera. "

Após as contraditórias infor­mações do fim de semana, o go­verno não emitiu nenhuma de­claração oficial sobre a saúde de Chávez. Na sexta-feira, o minis­tro das Relações Exteriores, Elias Jaua, havia ratificado a in­formação de Ernesto Villegas - ministro das Comunicações e In­formação - de que seu quadro havia piorado em razão da insufi­ciência pulmonar da qual o presi­dente padece desde a quarta ci­rurgia para combater o câncer a que se submeteu em Cuba.

Uma pesquisa da empresa Hinterlaces, publicada na terça-fei­ra, indica que 60% dos venezue­lanos acreditam que Chávez po­derá se curar e assumir novamen­te suas funções de governo. Por outra parte, a oposição intensifi­ca sua mobilização para uma eventual nova eleição presiden­cial - que se daria 30 dias após a possível declaração de incapaci­dade permanente de Chávez pa­ra exercer o poder.

O governador de Miranda e candidato presidencial derrota­do por Chávez em 7 de outubro, Henrique Capriles, reiterou on­tem que iniciará um giro por to­dos os Estados do país para mobi­lizar a população. "Se o presiden­te se recuperar e não houver elei­ções, ótimo. Mas temos de estar preparados para qualquer cená­rio", disse Capriles. Os partidos da Mesa da Unidade Democráti­ca (MUD), contudo, vêm ressal­tando que ainda não escolheram um nome para a possível disputa eleitoral.