Título: Investidor teme mudanças bruscas do governo
Autor: Villaverde, João
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/03/2013, Economia, p. B3

Para analistas, intervenções constantes acabam provocando efeito contrário e tirando confiança de empresários

O "ativismo" do governo Dilma tem sido insuficiente para convencer o setor privado a investir mais fortemente na economia brasileira. Para alguns analistas, as intervenções constantes acabam provocando um efeito contrário: tiram a confiança dos empresários, que temem mudanças abruptas na condução do País.

No ano passado, por exemplo, a chamada Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, que mede justamente os investimentos) caiu 4% na comparação com 2011. Para este ano, a expectativa de especialistas de mercado é de que a situação melhore.

As projeções, porém, variam bastante. Para alguns, o que se perdeu em 2012 será recuperado com folga, enquanto outros avaliam que a melhora prevista servirá apenas para que se volte aos níveis de 2011.

"Ao promover desonerações e oferecer benefícios pontuais a alguns setores, o governo pode contribuir para represar os investimentos", disse o economista Silvio Campos Neto, sócio da Tendências Consultoria.

O argumento dele é que empresários de um setor não contemplado pelas ações governamentais podem segurar investimentos na expectativa de que também venham a ser beneficiados com medidas especiais. Essa é uma das razões que explicam por que a Tendência projeta uma alta dos investimentos de apenas 3,8% em 2013. A estimativa para o PIB é de alta de 3%.

A LCA Consultores tem visão distinta. Para a consultoria, os investimentos devem avançar 8,3% neste ano, o que seria suficiente para levar a taxa de investimentos para perto de 20% do Produto Interno Bruto (PIB). Há um consenso entre especialistas de que o Brasil precisa investir entre 22% e 25% do PIB para crescer de forma sustentável na faixa de 4% a 4,5% ao ano.

A LCA avalia que os chamados indicadores antecedentes deste início de ano apontam que os investimentos cresceram 12,8% em janeiro na comparação com o mesmo mês do ano passado. "A retomada dos investimentos ganhou vigor no começo de 2013", afirma relatório da consultoria enviado a clientes.

Outros analistas observam que o ambiente econômico neste início de ano está conturbado, o que pode prejudicar a retomada dos investimentos - e diminuir ainda mais a eficiência dos pacotes do governo Dilma.

"Poucas vezes constatei tanto mau humor dos empresários como no início deste ano. Sucessivas interferências, inconsistência de discursos, etc. explicam esse sentimento", disse o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. "A confusão gerada pelas ações do começo do ano não ajuda em nada (os investimentos)", afirmou o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, sócio da AC Pastore & Associados.

Entre os fatores que atrapalham as decisões dos empresários, eles citam a alta da inflação, as medidas pontuais adotadas para contê-la (como a desoneração da cesta básica) e as incertezas sobre a taxa de câmbio.

Nos últimos meses, o governo emitiu sinais contraditórios sobre o nível que considera ideal para o dólar. "Essa incerteza fez muitas empresas perderem dinheiro no mercado financeiro", disse Mendonça de Barros.

Como contraponto, eles celebram as mudanças nas regras das concessões de serviços públicos, que aumentaram a taxa de retorno oferecida aos empresários.