Título: DIPLOMACIA SERVIDA COM BATATA FRITA
Autor:
Fonte: O Globo, 23/02/2005, O Mundo, p. 28

George W. Bush e Jacques Chirac nunca foram amigos, mas são políticos realistas que sabem quando se curvar e fazer a paz. Eles se reuniram num jantar, na segunda-feira à noite, determinados a estabelecer um novo tom para o segundo mandato do presidente americano.

¿ Toda vez que encontro Jacques, ele tem um bom conselho ¿ disse Bush (embora não seja segredo sua impaciência diante dos discursos de Chirac).

Por duas vezes Chirac disse que aprecia as ¿relações calorosas¿ com Bush (embora acrescente não compartilhar a mesma visão sobre o Iraque).

O gesto amigável no jantar não foi político ou pessoal, mas culinário. Após um risoto de lagosta com molho de trufa havia um prato de batatas. Bush anunciou que eram ¿batatas fritas¿ (¿batatas francesas¿, em inglês, e não mais ¿batatas da liberdade¿, como foram chamadas nos EUA durante a divergência sobre a guerra).

De certo modo, nunca houve época melhor para fazerem negócios. Em questões como Síria e Líbano, eles se encontram no mesmo campo. Em Afeganistão e Bálcãs, os dois países trabalham lado a lado. Mas por baixo dos sorrisos, Bush e Chirac têm visões muito diferentes.

As eleições iraquianas levaram os dois a se concentrar na reconstrução do país. Chirac lembrou a Bush que a França ofereceu US$20 milhões para treinar 1.500 policiais fora do Iraque. Mas, para frustração de Washington, a França não deseja enviar soldados ou dinheiro para o Iraque.

Sobre o Irã, Chirac e Bush compartilham o ponto de vista de que o país está determinado a desenvolver armas nucleares. Mas a França está engajada numa delicada negociação para persuadir o Irã a abandonar o enriquecimento de urânio.

Na crise entre israelenses e palestinos, a declaração de Bush de um compromisso renovado para retomar o processo de paz foi bem recebida. Mas a França rejeita a abordagem americana que quer que os palestinos realizem mudanças democráticas antes de um plano concreto para pressionar Israel.

Na área mais promissora de cooperação, na segunda-feira os dois presidentes se comprometeram a pressionar a Síria a retirar suas tropas do Líbano.