Título: BUSH OUVE EUROPA SOBRE CHINA
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Fonte: O Globo, 23/02/2005, O Mundo, p. 28
Em meio a uma lua-de-mel diplomática com o outro lado do Atlântico Norte, que incluiu jantares e encontros bilaterais com líderes frontalmente opostos aos Estados Unidos na invasão do Iraque, o presidente George W. Bush deixou de lado ontem seu tradicional unilateralismo e anunciou que poderá levantar suas restrições ao plano da União Européia (UE) de suspender o embargo à venda de armas à China.
O temor de Washington é que a compra de sofisticado armamento europeu por Pequim deixe vulnerável militarmente a ilha de Taiwan, protegida pelos Estados Unidos desde a vitória dos comunistas na Revolução Comunista em 1949. O embargo da UE está vigorando desde 1989, após o massacre dos ativistas pró-democracia na Praça da Paz Celestial, em Pequim.
¿ Há uma profunda preocupação no nosso país de que a venda de armas seria uma transferência de tecnologia para a China, o que mudaria o equilíbrio de forças entre China e Taiwan ¿ explicou Bush ontem numa reunião de cúpula com os demais líderes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Bruxelas.
Chirac: equilíbrio não será afetado
Bush, no entanto, disse ontem que a turnê de cinco dias pela Europa é uma ¿viagem para escutar¿ e se disse pronto a considerar se a UE vai realmente levar em conta as preocupações americanas em sua decisão, como promete o presidente da França, Jacques Chirac. Principal defensor do fim do embargo, Chirac alega que a medida já não é mais justificável e que outros aliados dos EUA, como Canadá e Austrália, não têm as mesmas restrições. O presidente da França ¿ também em clima de boa vontade com os EUA após ter sido o maior crítico europeu à guerra ¿ prometeu que a UE vai certificar-se de que as vendas de armamento à China não alterem o equilíbrio de forças entre Pequim e Taipé.
A possibilidade de entendimento entre americanos e europeus sobre o espinhoso tema surgiu durante o jantar de Bush com Chirac na noite de anteontem, em que os dois selaram sua reaproximação. Entretanto, Bush deixou claro que a UE vai ter de convencê-lo e também ao Congresso americano. Recentemente, a Câmara de Representantes aprovou por 411 votos a 3 uma resolução não obrigatória pedindo ao presidente que pressionasse o bloco europeu a reconsiderar suas intenções.
O presidente francês aproveitou e tentou fazer Bush apoiar as tentativas de Paris, Londres e Berlim de oferecer incentivos ao Irã para que o país abandone seu programa de enriquecimento de urânio. A posição de Washington tem sido mais dura, e Bush faz questão de afirmar que até uma ação militar é uma opção a ser considerada.
O presidente, por sua vez, marcou um ponto ao receber a promessa de ajuda da Otan no Iraque para a formação das forças de segurança. Os EUA fornecerão 60 treinadores e os demais países da Aliança Atlântica, outros 100. A França, a Alemanha e a Bélgica, no entanto, mostram-se irredutíveis na posição de que seus oficiais não devem servir dentro do Iraque.
¿ Qualquer contribuição ajuda ¿ comentou Bush.
Em Moscou, o presidente Vladimir Putin reagiu às críticas feitas por Bush anteontem ao que muitos percebem como uma guinada autoritária do governo russo. Segundo ele, a Rússia vai buscar a reforma democrática sozinha e não permitirá que o tema seja usado por outros países em suas agendas de política externa.
¿ Os princípios fundamentais da democracia e as instituições da democracia devem ser adaptados às realidades da vida russa hoje, às nossas tradições e à nossa História. Faremos isso nós mesmos ¿ rebateu Putin, que tem um encontro com Bush amanhã em Bratislava, na Eslováquia.
Ontem, o presidente dos EUA teve uma reunião com seu colega ucraniano, Viktor Yushchenko, que expressou o desejo de seu país ingressar tanto na União Européia como na Otan. Yushchenko, porém, ressaltou que os laços com Moscou ¿ que governou a Ucrânia por mais de 300 anos ¿ devem ser preservados.