Título: PT lava a roupa suja
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Fonte: O Globo, 24/02/2005, O País, p. 3
OPT prepara processo sumário de punição para o deputado Virgílio Guimarães (MG), sem passar pela comissão de ética do partido. O julgamento do deputado, que se lançou candidato avulso à presidência da Câmara e foi derrotado, seguirá o modelo do que resultou na expulsão do deputado João Fontes (SE), mas isso não significa que o caminho para sua expulsão esteja livre. Fontes foi expulso em dezembro de 2003 por ter distribuído fita antiga em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva atacava o então presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Segundo Sílvio Pereira, secretário-geral do PT, que fará a representação contra Virgílio na reunião da executiva no próximo dia 4, o caso de Virgílio está mais para suspensão de um ano a um ano e meio do que para expulsão. Se o deputado for suspenso do partido por um ano e meio, não poderá disputar a eleição do ano que vem.
¿ Sou contra os dois extremos, de que haja uma punição branda, como uma simples advertência, e a expulsão. O que Virgílio fez foi grave, mas ele tem história no partido. Não acho que seja o momento ainda de uma ruptura. Defendo que ele tenha um procedimento igual ao do João Fontes, sem passar pela comissão de ética, porque não há o que investigar, tudo o que ele fez é público e notório, mas não acho que seja caso para expulsão ¿ disse Pereira.
De acordo com o estatuto do partido (capítulo três), são oito as medidas disciplinares que Virgílio pode sofrer, desde advertência até expulsão com cancelamento da filiação. Caso a representação seja aprovada, será levada à reunião do diretório nacional, em 9 de abril, quando a punição será decidida. Virgílio terá dez dias após a reunião da executiva para fazer sua defesa.
¿ Houve um flagrante desrespeito ao partido por parte dele, por isso não há necessidade de provas nem de comissão de ética. Será um rito sumário, como está bem definido nos artigos 210 e 216 do estatuto ¿ explica Gleber Naime, secretário nacional de organização.
Virgílio entrou em conflito com a direção do PT ao insistir em sua candidatura avulsa à presidência da Câmara, contra a bancada do partido e apelos de dirigentes, como o presidente nacional José Genoino, que defendiam o candidato oficial, Luiz Eduardo Greenhalgh (SP), derrotado no segundo turno por Severino Cavalcanti (PP-PE), por 300 votos a 195.
Genoino já mostrou seu descontentamento:
¿ O estrago que ele fez ao PT já foi muito grande. E ele sabe qual é o caminho de suas atitudes ¿ advertiu Genoino, que não exclui nenhuma possibilidade. ¿ Tudo depende mais dele do que qualquer outra coisa.
Para Tarso, é preciso mais democracia no PT
A condução do partido na eleição na Câmara continua causando polêmica dentro do PT e no governo. O ministro da Educação, Tarso Genro, considera que a derrota mostrou que o partido precisa ser comandado daqui para a frente de forma mais aberta e democrática.
¿ O estilo de direção que predominou até esta crise era o necessário, que se tornou natural com uma experiência de dois anos (do governo Lula), mas as exigências da luta política agora são muito mais complexas do que antes ¿ disse Tarso ontem, um dia depois da reunião dos ministros petistas com Genoino, terça à noite.
No encontro, os petistas fizeram uma ampla avaliação dos erros do partido. Tarso afirma que nem Genoino nem Greenhalgh foram responsáveis pela derrota, que atribui ao PSDB e ao primeiro grande embate pela sucessão de Lula em 2006. Mas diz que houve um erro de avaliação de quem sustentou a candidatura de Greenhalgh, no caso, Genoino e a cúpula:
¿ Erro de avaliação, porque o Greenhalgh é um quadro de alta capacidade e respeitabilidade, mas o processo decisório não soube localizar o quadro que poderia ganhar a eleição. Esse processo decisório é que deve ser mudado.
Em setembro, o PT passará por eleições para escolher seu novo presidente. Para Tarso, Genoino é um dos políticos do partido em condições de presidir a legenda.
¿ Acho que o Genoino é um dos grandes quadros que podem suceder ao próprio Genoino.
Para o ministro das Cidades, Olívio Dutra, a derrota demonstra que o PT precisa ¿ter maior sensibilidade e saber lidar com as divergências dentro do próprio partido e da Casa¿. Ele disse que no jantar ficou acertado que a base do governo precisa tomar cuidado para não deixar que as relações entre o Executivo e o Legislativo sejam rebaixadas com a vitória do baixo clero.
¿ Não se pode permitir que a discussão seja focada no varejo e soterrando a visão estratégica de um desenvolvimento nacional e de combate às desigualdades ¿ afirmou.
(*) Especial para O GLOBO
`O PT é um partido lobotomizado¿
Deputado diz que pensar virou crime no PT, `movido a benesses e punições¿
Discreto desde o fim da disputa pela presidência da Câmara, no último dia 15, o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) quebrou ontem o silêncio com críticas ao PT e aos companheiros do partido. Em entrevista ao GLOBO, Virgílio afirmou que o partido está ¿desfibrilado¿ e ¿lobotomizado¿, numa referência à perda de musculatura da legenda. Ele disse que ¿pensar virou crime no PT¿ e, em mais um duro ataque à cúpula do partido, afirmou que a legenda hoje é ¿movida a benesses e punições¿.
Com o risco de ser punido pelo PT por ter lançado candidatura avulsa à presidência da Casa, Virgílio nega que tenha infringido regras do partido e afirma que o ministro José Dirceu (Casa Civil) precisa parar de fazer ameaças.
O deputado, que foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores há 25 anos, chega a comparar o seu partido com a estrutura do Partido Comunista da antiga União Soviética, numa referência à prática stalinista de eliminar líderes que discordavam da linha adotada pelo ditador Josef Stalin entre as décadas de 20 e 50. Segundo sua definição, no modelo soviético o líder era tirado do ¿poder para a sepultura¿. Para o deputado petista, seria uma evolução se o PT tivesse postura semelhante à do Partido Comunista da China, que chegou a reabilitar alguns líderes.
Como o senhor avalia o atual momento do PT, depois da derrota pela disputa na Câmara dos Deputados?
VIRGÍLIO GUIMARÃES: Pensar, no PT, virou crime. É um partido desfibrilado, sem musculatura, e lobotomizado. O pensamento foi abolido do PT. A legenda hoje é movida por benesses e punições. A cúpula do partido está conduzindo o PT a este caminho. O PT tem que substituir a força pelo diálogo.
Na sua avaliação, o partido passou a adotar uma linha stalinista?
VIRGÍLIO: Existe o exemplo chinês, em que o Partido Comunista tirava uma liderança do poder para a cadeia e da cadeia para o poder; e o modelo soviético, que tirava do poder para a sepultura. O PT é um partido soviético. Seria um grande avanço se o PT adotasse a linha chinesa.
O senhor fala isso porque está temendo uma retaliação do governo, como chegou a ameaçar o chefe da Casa Civil, José Dirceu, durante a campanha eleitoral para a presidência da Câmara?
VIRGÍLIO: Mas o governo vai me retaliar com o quê? Podem me tirar tudo. O José Dirceu precisa parar de ameaçar. Ele acha que tem teoria conspiratória em tudo. A cabeça dele entra num tubo e viaja numa velocidade muito rápida. Eu vejo o Dirceu com o binóculo invertido (menor).
Mas o partido também estuda uma punição contra o senhor...
VIRGÍLIO: Eu não cometi nada de errado. Não descumpri nenhuma regra partidária. Por isso, não posso ser punido.
Quais as conseqüências para o PT e para o governo dessa derrota na Câmara?
VIRGÍLIO: Espero que Lula tire uma lição do que ocorreu. O governo tem que aprender a negociar com os aliados e com a militância. Para 2006, o exemplo tem que ser dado em São Paulo. Ou o PT tem coragem de rejeitar a proposta de uma chapa puro-sangue ou corre o risco de perder a eleição. Ou abre mão em São Paulo ou não tem conversa. A Marta Suplicy perdeu a eleição por isso.
Como o senhor avalia a participação do ex-presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), na disputa pela sua sucessão?
VIRGÍLIO: Na bancada, onde é militante, João Paulo teve uma postura presidencial. No plenário, onde era presidente, ele teve uma postura de militante.
O senhor foi informado que o PT decidiu mudar de Belo Horizonte para Recife as comemorações dos 25 anos do PT, por temer problemas com os seus aliados?
VIRGÍLIO: O PT me trocou pelo Severino Cavalcanti (que é de Pernambuco) pela segunda vez. A primeira, foi quando tirou meus votos na disputa para não passar para o segundo turno.