Título: PAPEL CENTRAL
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Fonte: O Globo, 26/02/2005, Opinião, p. 6

No dia 6 de janeiro, quando o mundo ainda estava sob o impacto da devastação causada pelas ondas gigantes na Indonésia, a ONU divulgou relatório preparado por seu Grupo de Trabalho sobre Ciência, Tecnologia e Inovação que apontou a tragédia como prova de que os países em desenvolvimento deveriam colocar a ciência como uma de suas prioridades. O argumento é que um sistema de alerta poderia ter evitado milhares de mortes e bilhões de dólares em prejuízos.

O mesmo trabalho afirma que certa prioridade para as pesquisas científicas e tecnológicas tem efeitos muito benéficos na economia e dá como exemplo a Malásia, que, com uma estratégia de desenvolvimento baseada no apoio à ciência, passou de país exportador de matéria-prima para vendedor de produtos eletrônicos.

O Brasil ainda demonstra certa timidez diante dessa verdade, apesar de alguns sucessos evidentes. Na saúde, por exemplo, erradicamos a poliomielite em menos de uma década e enfrentamos a Aids com um programa elogiado em todo o mundo.

O grande entrave é o financiamento dos investimentos para este upgrade científico. Pesquisador da Universidade de Harvard, o professor Calestous Juma sugere que os países ricos comparem seus gastos com ajuda humanitária com o custo de um crédito para que o Terceiro Mundo viabilize uma revolução científica. Não é uma voz isolada: há na Europa até quem fale na montagem de uma espécie de novo Plano Marshall. Venha ou não ajuda externa, as nações em desenvolvimento precisam desatar esse nó e resolver a equação da autonomia científica.

Em nosso país, a universidade pública tem papel indissociável dessa tarefa. Segundo o MEC, 75% dos docentes com doutorado continuam trabalhando em instituições públicas, apesar dos salários maiores na iniciativa privada ¿ possivelmente porque a universidade pública garante total liberdade e melhores condições de trabalho para pesquisa. Parece indiscutível, portanto, que é na escola pública, em aliança estratégica com a iniciativa privada e com a sociedade organizada, que será travada a luta pela maioridade econômica e social da nação.

Assegurar às instituições recursos financeiros e humanos para que promovam este salto e acelerar a concessão de autonomia para que melhor direcionem os recursos ¿ mediante prestação de contas e debate público das diretrizes ¿ é um passo fundamental que o Brasil deve dar para que possa, a médio prazo, surfar na onda do desenvolvimento.