Título: MATANÇA EM FILA DE DESEMPREGADOS
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Fonte: O Globo, 01/03/2005, O Mundo, p. 30
Dezenas de cadáveres empilhados, pedaços de corpos espalhados por vários metros, o chão encharcado de sangue. Cenas dantescas que até mesmo no Iraque convulsionado por ataques terroristas dos últimos meses chocaram o país. A explosão de um carro-bomba diante de uma fila num hospital na cidade de Hilla, cem quilômetros ao sul de Bagdá, ontem de manhã, matou pelo menos 125 pessoas e pode ter ferido até 200, no maior atentado isolado desde a invasão do país, em março de 2003.
Cerca de cem homens estavam numa fila num hospital público para fazer exames de vista como parte das provas de seleção para a polícia iraquiana. Porém, além dos possíveis recrutas, muitas das vítimas foram mulheres e crianças que faziam compras num mercado popular do outro lado da rua.
¿ Eu estava na fila quando vi um carro vindo vagarosamente na nossa direção. Então ele explodiu numa bola de fogo gigante. Quando abri os olhos de novo, estava no hospital ¿ descreveu Amir Hassan, um dos jovens que participavam da prova de seleção.
Tudo indica que o ataque foi planejado para fazer o maior número possível de vítimas. Testemunhas afirmaram que havia apenas uma pessoa dentro do carro no momento da explosão, mas que ela chegara ao local acompanhada de um cúmplice.
¿ O terrorista veio de uma viela próxima. Havia duas pessoas (no carro) e quando ele parou, um homem saiu, apertou a mão do motorista e o beijou ¿ disse Zeyd Shamran, que estava no mercado na hora do ataque. ¿ Momentos depois o carro explodiu.
A violência da explosão poucas vezes foi vista no país. Do carro restou apenas uma parte do motor. Além das dezenas de cadáveres, centenas de pedaços de corpos, braços e pernas ficaram espalhados pela chão. Carroças foram usadas para retirar as partes de corpos do local.
Premier reconhece precisar de auxílio
Os pacientes que estavam nos hospitais da cidade foram retirados para que houvesse espaço para atender os feridos, muitos deles em estado grave, o que faz as autoridades acreditarem que o número de mortes pode aumentar nas próximas horas. No início da tarde, carros com alto-falantes percorriam a cidade pedindo que a população fosse até postos de saúde doar sangue.
Desde a invasão, o dia em que mais pessoas morreram em atentados terroristas foi 2 de março do ano passado, na festa xiita da Ashura. Ataques coordenados mataram cerca de 170 pessoas que deixavam mesquitas após as orações em Bagdá e Karbala. Na capital morreram pouco mais de 70 pessoas, enquanto que na cidade santa xiita foram cerca de cem as vítimas fatais. Além disso, em outra diferença em relação ao ataque de ontem, os ataques foram realizados com várias bombas diferentes detonadas simultaneamente.
O ataque ocorreu no dia em que foi publicada uma entrevista do primeiro-ministro interino, Iyad Allawi, na qual ele afirma que as forças iraquianas ainda não são capazes de enfrentar os rebeldes. ¿Os iraquianos devem ser capazes de assumir mais responsabilidades na área de segurança logo. Mas continuaremos a precisar de assistência por algum tempo ainda¿, disse ele, em reportagem publicada ontem no jornal ¿Wall Street Journal¿.
Um segundo carro-bomba explodiu próximo a um posto de controle militar americano no Iraque ontem, na cidade de Musayyib, 30 quilômetros ao norte de Hilla. Porém, apenas o terrorista morreu neste ataque.
Uma troca de tiros entre soldados iraquianos e rebeldes matou um civil e feriu dois em Baquba, no centro do país. Dois policiais foram mortos em Bagdá, um a tiros e outro com a explosão de uma bomba na beira da estrada. Um soldado americano foi morto a tiros na capital iraquiana dentro de um posto de controle.
Ontem, fontes do governo interino iraquiano forneceram detalhes sobre a prisão de Sabawi Ibrahim, meio-irmão de Saddam Hussein e um dos principais dirigentes do Partido Baath, além de ser acusado de ser um dos organizadores da rebelião no Iraque. Ele teria sido capturado por curdos sírios que o entregaram para curdos iraquianos. Como a comunidade curda é observada de perto pelo regime sírio, acredita-se que o governo em Damasco deve ter dado luz verde para a captura e a entrega de Ibrahim.
Um tribunal do Iraque anunciou ontem que foi concluída a fase de instrução na acusação de cinco ex-integrantes do governo de Saddam. Entre os acusados está o ex-vice-presidente Taha Yassin Ramadan e um outro meio-irmão de Saddam, Barzan Ibrahim al-Hassan. Os outros três são ex-dirigentes do Baath. Os cinco serão acusados de crimes contra a Humanidade por sua suposta participação no massacre de 50 pessoas em Dujail, depois de uma tentativa de assassinato de Saddam, em 1982.
Um funcionário da inteligência dos EUA afirmou ontem, sob a condição do anonimato, que Osama bin Laden teria pedido recentemente para o terrorista Abu Musab al-Zarqawi, seu principal aliado no Iraque, pensar na possibilidade de realizar ataques em território americano.