Título: `Agora existe sintonia¿
Autor:
Fonte: O Globo, 01/03/2005, O Mundo, p. 32
Recompor o vínculo com os vizinhos latino-americanos e exigir que sejam esclarecidos os crimes da ditadura serão prioridades do novo governo uruguaio, afirma o chanceler Reinaldo Gargano, de 70 anos.
Com a chegada de Tabaré Vázquez ao poder o Uruguai se reaproximará dos países latino-americanos?
REINALDO GARGANO: Nossa prioridade será o relacionamento com os demais países da região, especialmente o fortalecimento do Mercosul. Temos de construir um espaço político que tenha uma voz comum, uma voz de peso.
O novo governo uruguaio é parte de uma onda esquerdista na América Latina?
GARGANO: Desde o ano 2000, com a posse do presidente Ricardo Lagos, no Chile, começou a ser construído o que eu gosto de chamar um arco virtuoso no continente, integrado por Chile, Brasil, Argentina, Venezuela e agora também o Uruguai. São governos comprometidos com a construção de políticas progressistas. Somos um dos continentes mais ricos do mundo, mas não temos o peso que deveríamos ter. Mesmo vozes poderosas, como a do Brasil, isoladas não terão o mesmo peso que teriam estando juntas.
Existe um eixo Brasília- Buenos Aires-Caracas-Montevidéu?
GARGANO: Prefiro não falar em eixo, essa palavra me traz à memória épocas que prefiro esquecer. Não existem eixos do bem e do mal. Existe uma sintonia que não existia desde a independência de nossos países.
Durante a campanha eleitoral, Tabaré foi chamado de "Lula uruguaio"...
GARGANO: A realidade uruguaia é muito diferente da do Brasil. Acho que o governo do Tabaré será parecido com o programa de governo da Frente Ampla.
Como será a política do novo governo sobre direitos humanos?
GARGANO: Teremos uma política mais ativa em matéria de respeito dos direitos humanos e do cumprimento da lei. Temos uma lei que concedeu anistia aos militares aprovada pela população através de um referendo e esse pronunciamento popular não pode ser desconhecido. Mas exigiremos o cumprimento dessa lei, que prevê a busca da verdade e o esclarecimento dos crimes cometidos. Todos os que não estiverem protegidos pela lei deverão ser julgados, civis e militares.