Título: `Meu medo é o voto inconsciente¿
Autor:
Fonte: O Globo, 27/02/2005, O País, p. 16

A população brasileira não está bem informada sobre a importância da proibição da comercialização de armas, e isso pode comprometer a aprovação dessa iniciativa no plebiscito de outubro. A avaliação é da gerente de mobilização do Instituto Sou da Paz, Mariana Montoro, que aponta falhas nas campanhas feitas até agora.

Pesquisa Sensus/CNT aponta redução do número de pessoas que apóiam a proibição de venda de armas. Como a senhora avalia esse resultado?

MARIANA MONTORO: Não vejo isso como tendência. Talvez as pessoas tenham confundido a proibição da venda de armas com o desarmamento. Muita gente apóia o desarmamento mas tem dúvida sobre a proibição, porque acha que as fábricas vão ser fechadas, o que não é verdade. Queremos evitar que armas legais, compradas em lojas, caiam nas mãos de bandidos. No Estado de São Paulo, cerca de 11 mil armas são roubadas por ano.

As campanhas feitas até agora foram falhas?

MARIANA: Em parte sim, porque o foco ficou apenas no desarmamento. O Estatuto do Desarmamento é mais do que isso. Temos que deixar claro à população que um país com muitas armas em circulação tem maiores índices de homicídios por questões banais. O espírito do Estatuto é reduzir o número de armas em circulação.

Como mudar esse quadro apontado pela pesquisa?

MARIANA: Precisamos mostrar às pessoas como a proibição da venda de armas pode melhorar a vida delas. Meu medo é que as pessoas não votem conscientes no plebiscito, da mesma forma que aconteceu quando houve referendo para decidir se o país seguiria o presidencialismo ou mudaria para parlamentarismo ou monarquia.

Há tempo para esse esclarecimento?

MARIANA: Acho que sim. O problema é que não temos nem a garantia de que haverá o referendo. Antes de fazermos campanha para conscientizar a população, temos que pressionar o governo para garantir não só o pleito como também o espaço adequado para uma discussão ampla e irrestrita.