Título: MINISTÉRIO DA JUSTIÇA VAI REFORÇAR CAMPANHA DE DESARMAMENTO
Autor:
Fonte: O Globo, 27/02/2005, O País, p. 16
Depois do alerta sobre a queda do apoio da população à proibição do comércio de armas no país, tema que será submetido a referendo em outubro, o Ministério da Justiça decidiu redobrar os esforços para impedir que uma das medidas mais importantes do Estatuto do Desarmamento seja derrotada na consulta popular. O ponto de partida foi um acordo firmado entre o governo, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic) para a criação, em abril, do dia D do desarmamento.
O Movimento Viva Rio, organização não-governamental dedicada ao combate à violência, pedirá ainda esta semana ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que o governo faça investimentos maciços em publicidade para esclarecer a população sobre a importância do desarmamento. Antônio Rangel, coordenador da campanha de desarmamento do Viva Rio, diz que o governo nunca explicou o motivo da campanha e, por isso, a sociedade criou falsas expectativas de que a entrega de armas diminuiria a criminalidade no país.
Pelo acordo entre o governo e líderes religiosos, as igrejas católica e protestantes de todo o país deverão permanecer abertas num domingo de abril para receber armas. A data exata será acertada conforme a capacidade das igrejas de preparação para a tarefa. A participação das igrejas é considerada fundamental para o sucesso da campanha. As igrejas têm representação em todo o território nacional, inclusive em lugarejos distantes de quartéis e de delegacias de polícia.
Auxiliares de Bastos acreditam que muita gente vai se sentir mais à vontade para entregar armas numa igreja em vez de ir a uma delegacia. O Viva Rio acha importante também que o governo reforce a campanha publicitária sobre o desarmamento, iniciada no fim do ano passado.
¿ É uma campanha que pretende mudar costumes e, por isso, pede esclarecimentos públicos. A campanha do desarmamento não tem o objetivo de reduzir a criminalidade, mas convencer o cidadão de bem de que ter uma arma em casa representa um risco para si mesmo e para a família ¿ disse Rangel.
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), também está preocupado com a regulamentação do referendo. Deputados e senadores contrários ao estatuto já apresentaram propostas para mudar a idéia original do referendo. Alguns estão incluindo no texto do referendo perguntas sobre pena de morte, aborto e casamento homossexual, entre outros temas.
¿ Sou contra pulverização do referendo. Acho que a consulta tem que ser sobre um tema só ¿ disse Calheiros.
O referendo será coordenado pelo TSE, que ainda precisa decidir se o voto será obrigatório e se haverá horário de propaganda gratuita na TV. O governo reservou R$200 milhões para a consulta popular. Mas, com base em eleições anteriores, o TSE calcula que a disputa não custará menos de R$500 milhões.
Até agora, Polícia Federal e Exército recolheram 285 mil armas. A meta do governo é retirar de circulação pelo menos 400 mil armas até o final de junho, quando termina a campanha.