Título: URUGUAI REAPROXIMA-SE DO BLOCO DO MERCOSUL
Autor:
Fonte: O Globo, 27/02/2005, Economia, p. 34

Clima de euforia no Palácio do Planalto e no Itamaraty. A dois dias da posse do novo presidente do Uruguai, o socialista Tabaré Vásquez, todos apostam no fortalecimento do Mercosul com o retorno dos uruguaios ¿ tidos como ovelhas desgarradas do bloco durante a gestão do atual presidente do país vizinho, Jorge Batlle. No governo brasileiro, a conclusão é de que o Mercosul ficará mais coeso internamente e terá mais firmeza ao conversar com os demais parceiros internacionais.

¿ A mudança no Uruguai será boa em todos os aspectos ¿ afirma o assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia.

Para o presidente do Centro Brasileiro de Estudos Internacionais (Cebri), José Botafogo Gonçalves, é como se o Mercosul recebesse de volta o Uruguai de braços abertos. Segundo Botafogo, Jorge Batlle, talvez por não confiar no bloco, sempre preferiu negociar sozinho com os Estados Unidos. Tanto é que os uruguaios assinaram, em 2004, um acordo de investimentos com os americanos que deverá ser revisto pelo novo governo.

¿ Por outro lado, o governo Lula tende a ser mais flexível quanto ao atendimento das reivindicações do Uruguai, com destaque para o tratamento preferencial em uma série de itens no comércio. É um país pequeno, que precisamos ajudar a se desenvolver ¿ enfatiza Botafogo Gonçalves, que participou das principais negociações do Mercosul e foi embaixador do Brasil na Argentina.

Lula será mais flexível com reivindicações uruguaias

Lula e Vásquez sempre foram amigos e o presidente brasileiro o apoiou publicamente durante a campanha. Essa ligação, acreditam fontes do Itamaraty, poderá amenizar os diversos arranhões nas relações bilaterais entre brasileiros e uruguaios. Jorge Batlle nunca se conformou com as concessões feitas pelo Brasil à Argentina, para ajudar o país a sair da crise, e sempre se queixava do fato de seu país também precisar de compensações do maior sócio do bloco.

Mas nem todos estão otimistas. Para o economista Cristiano Souza, da MCM Consultores, a troca de comando não fará tanta diferença, pois enquanto a Argentina se recupera, o Uruguai segue estagnado. De acordo com o economista, os uruguaios querem mudar o cenário econômico e deverão exigir isso do novo governo.

¿ Mas não concordo com uma postura paternalista do Brasil. Quando o país ajudou a Argentina, fez vista grossa a uma série de restrições que eles nos impuseram. Isso significa perda de mercado para empresas competitivas, que investiram para serem melhores ¿ acrescenta Cristiano.