Título: SOMBRA E PETISTA RESPONDERÃO POR 'CAIXINHA'
Autor: Flávio Freire
Fonte: O Globo, 05/03/2005, O Páis, p. 10
Juiz aceita denúncia contra ex-assessor do prefeito Celso Daniel e grupo acusado de cobrança de propina em Santo André
SÃO PAULO. O juiz da 1ª Vara Criminal de Santo André, Iasin Issa Ahmed, aceitou ontem denúncia feita há dois anos pelo Ministério Público contra o empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. Segundo os promotores, ele é um dos responsáveis pela "caixinha" feita com propina cobrada dos empresários de ônibus da cidade. Sombra e outras seis pessoas, entre eles um vereador petista, teriam extorquido dinheiro de empresários entre 1997 e 2002. Segundo denúncias da família de Daniel, o dinheiro seria usado em campanhas de petistas. O PT nega.
Já acusado de ser um dos responsáveis pela morte do prefeito Celso Daniel, Sombra responderá agora pelos crimes de concussão (extorsão praticada por funcionário público) e formação de quadrilha. O Ministério Público investiga a possível ligação entre o assassinato do prefeito e o esquema ilegal na prefeitura petista de Santo André.
Além de Sombra, a Justiça também aceitou a denúncia pelos mesmos crimes contra o vereador do PT de Santo André Klinger Luiz de Oliveira Souza e os empresários Ronan Maria Pinto, Humberto Tarcísio de Castro, Irineu Marcolino Martin Bianco e Luiz Marcondes de Freitas Junior. Todos estariam envolvidos no esquema.
O Ministério Público reforça a acusação citando três vezes a palavra "caixinha" na denúncia enviada à Justiça.
Celso Daniel teria descoberto o esquema
O Ministério Público sustenta a tese de que Celso Daniel foi morto porque descobriu o esquema e tentou acabar com as irregularidades. Por causa do assassinato do prefeito, Sombra ficou preso por sete meses, até julho do ano passado.
- Quando foi preso acusado de ser responsável pela morte do prefeito, Sérgio se recusou a responder sobre o esquema de propina. Agora o esquema ilegal em Santo André poderá ser apurado pela Justiça - explicou ontem o promotor público Roberto Wider Filho.
Com a denúncia, a Promotoria pretende agora somar ao inquérito informações obtidas com a quebra do sigilo fiscal e bancário dos acusados. Solicitados em 2003, alguns documentos haviam sido guardados em caixas que estavam lacradas. O interrogatório de Sombra, de Klinger e dos três empresários denunciados está marcado para 22 de julho. Em seguida, serão ouvidas testemunhas de defesa e de acusação. Só depois o juiz poderá decidir a pena.
O advogado Roberto Podval, que defende Sombra, disse ontem que a decisão da Justiça deveria ser tomada apenas depois de o Supremo Tribunal Federal decidir sobre a atribuição do Ministério Público em relação a investigações como a que envolve o assassinato do prefeito e o esquema de recolhimento de propinas.
Em nota, Ronan diz que mantém a mesma serenidade
Ainda assim, segundo ele, a denúncia aceita ontem pelo juiz da 1ª Vara Criminal não apresenta nenhum fato efetivo da participação de seu cliente no processo.
- Posso dizer que esse é um bom caminho para provar a inocência do Sérgio e botar um ponto final no caso - disse o advogado.
A assessoria de Ronan distribuiu nota, na qual o empresário diz que vai enfrentar o processo com a mesma "serenidade de sempre". "Não tenho o que temer, apenas ver esses assuntos resolvidos de uma vez por todas. São de tal despropósito e descabidas essas acusações que buscam me envolver que, quanto mais profundas forem as análises judiciais, melhor", diz a nota.
O vereador Klinger e os outros dois empresários acusados não foram encontrados ontem para comentar a decisão do juiz.
No esquema das propinas
O prefeito Celso Daniel foi encontrado morto em janeiro de 2003, dois dias depois de seqüestrado após jantar com Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. O empresário, que começara como segurança de Celso Daniel e chegou a dono de empresas de ônibus, foi apontado pelos seqüestradores como mandante do crime, segundo o Ministério Público. Chegou a ficar sete meses preso pelo crime mas foi solto em julho do ano passado. Em outro processo, porém, ele é acusado de integrar um esquema de corrupção em Santo André na gestão de Daniel, que teria descoberto os crimes. Pessoas ligadas à prefeitura petista, incluindo Sombra, o vereador petista Klinger Luiz de Oliveira Silva e o empresário Ronan Maria Pinto, cobrariam propina de empresas de ônibus, fazendo uma "caixinha". Segundo a família de Daniel, para políticos do PT, que nega.