Título: EMPRESAS DO SETOR PRODUTIVO FORAM MAIS RENTÁVEIS DO QUE BANCOS EM 2004
Autor: Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 05/03/2005, Economia, p. 28

É a primeira vez em dez anos que corporações ganham do setor financeiro

SÃO PAULO. Os balanços publicados até agora mostram que 2004 foi um ano de resultados recordes para as empresas, impulsionados pelo crescimento das exportações e pela recuperação do PIB - que fechou o ano com alta de 5,2%, a maior em uma década. Levantamento da consultoria Economática mostra que o lucro líquido de um conjunto de 79 companhias com ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo chegou a R$24,2 bilhões em 2004, o que correspondeu a um salto de 45,8% em relação a 2003.

Também recorde, a chamada receita líquida operacional, que exclui eventuais ganhos com aplicações financeiras, aumentou 12,9% e alcançou R$238,3 bilhões. Esses números não consideraram o balanço da Petrobras, dona de lucro de R$17,8 bilhões em 2004, que poderia distorcer as comparações.

Com ganhos tão expressivos, os empresários ainda comemoram no ano passado uma vitória no embate particular com os bancos - que também tiveram no ano passado resultados recordes. Pela primeira vez nos últimos dez anos, o setor não-financeiro registrou rentabilidade superior à das instituições financeiras.

Endividamento das empresas caiu 12,2% no ano passado

O retorno sobre o patrimônio líquido das 79 empresas acompanhadas pela Economática passou de 17,4%, em 2003, para 23,6% em 2004. No mesmo período, a rentabilidade de uma amostra com os cinco maiores bancos que já divulgaram seus balanços (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Unibanco e Banespa) foi de 21,49% para 22,58%.

O ranking dos dez maiores lucros no ano, ainda liderado pelo Itaú (R$3,775 bilhões), traz quatro bancos (mais BB, Bradesco e Unibanco) e seis empresas. Destas seis empresas, quatro (Gerdau, CSN, CST e Usiminas) são do setor siderúrgico. Elas ganharam como nunca com a forte demanda internacional, sobretudo da Ásia, e com aumento de preços do aço. Dependendo do produto, os reajustes chegaram a 80% em 2004. O melhor resultado desse setor coube à Gerdau: lucro de R$3,2 bilhões, 158% a mais do que em 2003.

A expansão acelerada das exportações e do preço das commodities no mercado internacional responde só por parte do desempenho das empresas em 2004. A queda de 8% do dólar frente ao real também ajudou a aliviar o peso das dívidas em moeda estrangeira. Pelos números da Economática, a dívida financeira total caiu 12,2% (de R$93,2 bilhões para R$81,9 bilhões).

Como as empresas também conseguiram aumentar o chamado lucro operacional próprio, melhorou o índice de solvência do setor. Isso pode ser medido pela relação lucro operacional/dívida financeira, que passou de 33,7% para 53,3%. Isso significa que, para cada cem reais em contas a pagar, as empresas conseguem gerar R$53,30 de lucro através de sua atividade principal.

Expectativa é de que o BC comece a cortar os juros

A questão agora é se esse comportamento se repetirá neste ano. Ao contrário das previsões iniciais, as principais economias no mundo mantêm forte atividade interna, o que em tese pode garantir o ritmo das exportações. Na terça-feira, o governo comemorou a marca de US$100 bilhões em exportações entre março de 2004 e fevereiro deste ano. Para 2005, esperam-se US$108 bilhões.

Mas existem dúvidas em relação ao comportamento do mercado interno. As últimas indicações são de que o ritmo de crescimento da produção industrial e das vendas no varejo está desacelerando em relação ao fim de 2004 e muitos empresários já falam em engavetar outra vez os projetos de investimento pelo menos até o fim do primeiro trimestre. O que incomoda é a tendência futura dos juros.

- É provável que a Selic caia mais cedo do que se esperava. Mesmo assim, existe muita incerteza no ar - diz o diretor do Departamento de Economia do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Boris Tabacof.

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inclui quadro: Os resultados das companhias / os maiores lucros de 2004