Título: TEMA EM DISCUSSÃO: CRISE NA SAÚDE
Autor:
Fonte: O Globo, 07/03/2005, O País, p. 6
Sem razão
Todos sabem que a primeira virtude das autoridades é o espírito público, a capacidade de relegar desavenças pessoais e disputas políticas a segundo plano quando estão em jogo os interesses mais altos da coletividade.
É triste verificar a ausência de abnegação e amor à causa pública no modo de agir das autoridades do Rio de Janeiro e dos seus colegas da área federal que buscam solução para a crise dos hospitais públicos da cidade ¿ crise essa que, para dizer o mínimo, há muito ultrapassou os limites do razoável e do tolerável.
É inaceitável que o prefeito Cesar Maia e o ministro da Saúde, Humberto Costa, troquem farpas e insultos, ou se melindrem com insultos reais ou supostos da outra parte, enquanto pacientes sofrem na carne as conseqüências do descaso, da incompetência e da falta de entrosamento entre o Rio de Janeiro e Brasília.
A opinião pública já chegou a um veredicto sem precisar ouvir argumentos de acusação ou defesa, pois neste caso não se trata de escutar com paciência, mas de agir com rapidez. Enquanto doentes morrerem à míngua devido à superlotação e à falta de equipamento nos hospitais, nem a prefeitura nem o ministério têm um grama de razão.
Na realidade, ambos têm igual parcela de culpa nas aflições de pessoas como o aposentado de 77 anos que há um ano e meio aguarda no Hospital da Lagoa uma cirurgia para preservar a audição. Assim como são igualmente responsáveis, em sua omissão, pelo desabafo da paciente de uma unidade de oncologia, um grito de socorro que incrimina todas as autoridades, municipais e federais: ¿Só nos resta morrer!¿