Título: PP JÁ PEDE 'PORTEIRA FECHADA'
Autor: Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 08/03/2005, O País, p. 03
Além de mais ministérios, partido quer todos os cargos das pastas que lhe couberem
Além do PT, que pressiona para manter seus cargos no primeiro escalão do governo, o PP, partido do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PE), surge como outro entrave para a reforma ministerial. Antes da eleição de Severino, o PP negociou uma indicação para o Ministério dos Esportes. Agora, o partido exige espaço maior e mais nobre. No governo já se cogitou a possibilidade de dar ao PP as pastas das Comunicações ou do Trabalho. Mas o partido já avisou que só aceita esses ministérios de "porteira fechada".
No jargão político, isso significa que o PP exige todos os cargos dos ministérios. No caso das Comunicações, isso representa o comando dos Correios e uma vaga futura na diretoria da Anatel. Já sobre a pasta do Trabalho, dirigentes do PP têm dito que só querem se forem entregues ao partido as delegacias regionais. São propostas que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não aceita.
- Somente o Ministério das Comunicações não dá! Tem que ser uma coisa mais recheada. Só assim posso sentar para conversar com a bancada. O PL, que é menor do que o PP, tem dois ministérios. O PMDB, que também tem um número menor de deputados votando com o governo, tem dois ministérios - disse ontem o presidente do PP, deputado Pedro Corrêa (PE). - O governo precisa avaliar que temos o presidente da Câmara. O problema é que essa reforma ministerial demorou demais. Se tivessem nomeado o deputado Pedro Henry , ministro dos Esportes, sequer o Severino teria saído candidato.
Lula busca saída para agradar ao PP
O presidente disse ontem a interlocutores que está procurando uma solução que agrade ao PP para fechar a equação da reforma ministerial, o que poderá fazer ainda esta semana. Lula tem dito, porém, que não dará ao partido tudo o que o PP quer. O desafio é encontrar um jeito de dar menos, mas sem contrariar o partido de Severino.
Um ministro confirma que um dos problemas da reforma ministerial agora é que o PP está cobrando um preço muito alto para manter seu apoio ao governo. O fato já estaria causando constrangimentos e irritando Lula. Hoje, a cúpula do PP fará reunião em Brasília para avaliar a estratégia do partido nas negociações com o governo.
Para resolver o impasse com o PP, Lula designou o chefe da Casa Civil, José Dirceu, enquanto o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), está encarregado de sondar o PMDB. A expectativa no PP é que Dirceu chame Corrêa e Janene para uma conversa no Planalto até amanhã e que Lula anuncie as mudanças até sexta-feira.
- O tempo da reforma ministerial é o tempo da política. Mas o presidente espera concluir a reforma esta semana. Essa é uma engenharia política complexa. Tem mais gente querendo entrar do que vaga - afirmou Mercadante.
O senador disse que a reforma precisa levar em conta a reorganização da base na Câmara e no Senado. Mas ao mesmo tempo, fez uma defesa do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo (PCdoB), alvo de críticas de petistas.
- Cabe ao presidente decidir o futuro do ministro Aldo. Estamos com problemas na articulação política que precisam ser resolvidos. Mas Aldo goza de toda a confiança do presidente - disse Mercadante.
Enquanto Lula não resolve o problema do PP, o PMDB aguarda sua vez de negociar. No fim de semana, o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), ficou de prontidão, em Brasília, mas não foi chamado.
- O tempo é do presidente. Não pedimos a reforma. Foi Lula quem nos chamou e disse que iria fazê-la. O caminho dessa reforma é fazer uma coalizão da base aliada e desenvolver a eficiência do governo - disse Renan.