Título: Dirceu, o retorno
Autor:
Fonte: O Globo, 12/03/2005, O globo, p. 2
Já se fala em testamento
Apesar dos tiros e da fumaça a seu redor, o ministro Aldo Rebelo continua impávido como um São Sebastião, o que dá aos próximos a certeza de que algo ele já combinou com Lula, seja ou não outro ministério. Almoçaram juntos anteontem.
Mas a saída é tão certa que entre seus assessores já se defende a preservação de algumas experiências de sua coordenação. Entre elas, o diálogo e a negociação do conteúdo das matérias com a oposição, permitindo que ela também fature a aprovação de medidas positivas. Exemplos recentes, a aprovação da lei que permite os consórcios municipais para serviços de saneamento e similares.
No Senado, Aldo negociou com o PSDB a aprovação do projeto do senador Sérgio Guerra, relatado por Eduardo Azeredo, em lugar da proposta do governo, desde que incorporados alguns de seus pontos. Repetiu o acordo na Câmara, negociando com o líder do PFL, Rodrigo Maia, que exigia primeiro a votação do aumento das verbas do FPM (Fundo de Participação dos Municípios). O governo não pode querer ganhar sozinho o tempo todo, vive dizendo ele.
Sem mágoas
O deputado Miro Teixeira escreve sobre a afirmação de ontem, de que Lula arrisca-se a repetir com Aldo o que fez com ele, ao tirá-lo do ministério para ser líder: ¿Para ser correto com o velho e bom Luiz Inácio, quebro minha regra de comportamento de jamais revelar conversa a dois. Em dezembro de 2003, o noticiário afirmava insistentemente que eu continuaria no Ministério das Comunicações se deixasse o PDT. Lula chamou-me ao Alvorada e lá, na biblioteca, disse-me que meu destino partidário era questão minha, mas que eu continuaria ministro qualquer que fosse minha decisão. Pela primeira vez, disse-lhe que não poderia continuar. Os ataques do PDT ao governo se intensificavam, causando-me desconforto. Minha prioridade era o apoio ao governo e não à permanência no ministério. Se eu saísse do partido e continuasse ministro, passaria a vida explicando que não fiz opção oportunista. Ele discordou, voltaríamos a falar depois. Passaram os dias e o `depois¿ não chegava.¿ Em resumo, diante do ultimato do PDT, Miro pediu demissão. Só depois saiu do partido. Mas feito líder, deixou o cargo em seguida. Problemas houve, ainda que não com Lula.
Dirceu, o retorno
Neste fim de semana, além de jogar futebol, o presidente Lula deve decidir sobre o que fará com a área política, hoje a mais crítica de seu governo. São fortes os argumentos para que acabe com a pasta da Coordenação Política e devolva a função ao ministro José Dirceu, que continuaria na Casa Civil. Ou seja, tão forte quanto era antes do caso Waldomiro.
Lula resiste em reaglutinar as duas coordenações ¿ a política e a governamental ¿ mas não tanto pelo argumento de que nenhum outro nome, ainda que petista, reúne as condições necessárias para gerir politicamente a coalizão governista e articular as alianças para a disputa presidencial de 2006.
Há um ano, quando desceu aos infernos com o caso Waldomiro, Dirceu desabafava com os amigos: o que mais lhe doía eram as suspeitas de que tivesse acobertado o ex-assessor e a certeza de que nunca mais seria o ministro que havia sido até então. E até então ele fora a própria emanação do poder petista: artífice da vitória de Lula, fiador das alianças políticas, interlocutor das elites, ídolo do PT, oráculo dos aliados, detentor das nomeações e chefe de quase todos os ministros. Hoje, já recuperou boa parte de seu tamanho e força anteriores. Afirmou-se como gerente do governo e tornou-se o senhor da área de infra-estrutura. Nos últimos meses, fez importantes incursões internacionais como chanceler político do governo. E, por fim, voltou à frente política, de onde Lula mandou que saísse. Agora mesmo, na reforma ministerial, está funcionando junto aos partidos como o embaixador de Lula, realizando as conversas e sondagens preliminares. Só isso já faz dele, diz um dos defensores da velha fórmula, o nome quase único para a Coordenação Política. Um outro amanhã não saberá responder à cobrança de um partido aliado sobre algo combinado na reforma. Uma vez fiador, terá que ser também o executor. Neste sentido, Lula teria facilitado muito a própria vida se, antes de deflagrar a reforma, tivesse resolvido o problema da Coordenação Política. Caberia agora ao coordenador negociar as mudanças, livrando-o dos detalhes.
A favor da velha fórmula pesam os maus resultados da separação de funções que levou à criação do Ministério da Coordenação Política. Quem procura o coordenador político busca soluções para problemas com o governo e dentro dele. Logo, só pode coordenar quem pode também mandar. Lembram seus defensores que a divisão foi oportuna há um ano, e neste sentido o ministro Aldo prestou um grande serviço ao governo. Dirceu pôde recolher-se às funções administrativas e curar-se das feridas. Mas agora o modelo estaria esgotado, não por incapacidade de Aldo, e teria que ser mudado não para atender ao PT. Um outro petista, como João Paulo, tão cotado, acabaria enfrentando o mesmo problema: os aliados continuariam querendo sempre falar com Dirceu e buscar nele as soluções. E depois, há 2006, com os acordos a serem costurados em cada estado. Lula precisa não apenas de um negociador autorizado pelo PT, mas que tenha também ascendência sobre o PT nos estados.