Título: JOÃO PAULO DEVERÁ SUBSTITUIR ALDO NO MINISTÉRIO
Autor: Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 14/03/2005, O País, p. 5

Caso aceite a coordenação política do governo, ex-presidente da Câmara não poderá disputar as eleições de 2006

BRASÍLIA. A ida do ex-presidente da Câmara, deputado João Paulo Cunha (PT-SP), para o comando da coordenação política do governo, no lugar do ministro Aldo Rebelo, está praticamente acertada. Mas para que o deputado assuma o posto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá pedir que ele não dispute as eleições de 2006. Lula já avisou que o petista que entrar agora no governo não poderá sair em abril do ano que vem para a disputar a eleição.

PT exige a saída de Aldo da Coordenação Política

Se João Paulo aceitar a proposta nessas condições, outro problema do PT ficará mais fácil de ser resolvido: a disputa pelo governo de São Paulo. A avaliação interna do PT é que a disputa pela indicação do partido será muito mais tranquila se os pré-candidatos forem apenas dois: a ex-prefeita Marta Suplicy e o senador Aloizio Mercadante (PT-SP).

Ontem à noite, o presidente Lula chamou os ministros José Dirceu (Casa Civil), Antonio Palocci (Fazenda) e Luiz Gushiken (Secretaria de Comunicação) para uma reunião na Granja do Torto. Seria mais uma rodada de conversas para tentar resolver o imbróglio em que se transformou a articulação política do governo. Um problema criado pelo próprio PT, que exige a saída de Aldo do Ministério da Coordenação Política.

Lula quer unidade do partido na sucessão paulista

Segundo assessores, Lula não deverá aceitar a proposta de grupos do PT de reaglutinar a coordenação política com a Casa Civil, como ocorria no primeiro ano de governo. Mas o presidente já concorda que é preciso ter um petista no Planalto cuidando das negociações com o Congresso e que este petista seja próximo de Dirceu.

Lula falou duas vezes com João Paulo na semana passada. Na primeira conversa, o ex-presidente da Câmara saiu do Planalto ainda resistente à proposta. No final da tarde de sexta-feira, depois de um novo encontro com Lula, João Paulo partiu para São Paulo mais inclinado a aceitar o convite de entrar para o governo, segundo interlocutores. Nessas conversas o presidente vem insistindo que quer unidade petista para a sucessão paulista.

¿ João Paulo alcançou um nível de representatividade e competência tal que está apto para assumir qualquer cargo no governo ¿ elogiou, ontem, o presidente do PT, José Genoino.

Lula manifestou mais de uma vez nos últimos dias sua preocupação com o futuro da coordenação política. Ele deve ter nova conversa, hoje ou amanhã, com o ministro Aldo Rebelo sobre sua situação no governo. Interlocutores do presidente diziam ontem que Aldo será chamado para ocupar o Ministério do Trabalho, no lugar de Ricardo Berzoini. Uma segunda opção para Aldo seria a liderança do governo na Câmara, cargo que também pode ser ocupado por João Paulo, caso não haja entendimento para ele virar ministro.

Preocupado com a recomposição da sua base de apoio no Congresso e com as alianças para 2006, o presidente Lula tem dito que o novo coordenador político do governo tem que ser afinado com o núcleo de ministros palacianos.

¿ A coordenação política é o setor que está desmantelado e com que Lula tem mais cautela. Essa área está consumindo muito o presidente. Ele está consciente de que é preciso reaglutinar os partidos da base aliada. Por isso, é preciso fortalecer essa estrutura. O resto vai bem no governo. A área política é que precisa de uma atenção especial. É bom lembrar que no próximo ano terá eleição e o governo não pode entrar na disputa dividido ¿ disse o governador Jorge Viana (PT-AC), que deixou Brasília no fim de semana, depois de vários encontros com o presidente Lula.

Lula deve retomar hoje as conversas com o PT e com os partidos aliados. O PP, outra pendência da reforma, continua na expectativa. Como foram desmobilizados no final da semana passada, os integrantes da cúpula do partido só estarão em Brasília na terça-feira.

O líder do PP na Câmara, deputado José Janene (PR), alertou ontem que a mudança na equipe do governo deve acontecer também nos cargos de segundo e terceiro escalões. Reportagem do GLOBO publicada ontem informa que o PT ocupa 64,9% desses cargos federais.

¿ Os principais cargos estão na mão do PT. Depois, não venham falar em coalizão com esse tipo coisa. É preciso que a reforma ministerial também contemple os partidos aliados nesses cargos. O PP entregou uma lista com indicações em 2003. Mas depois de dois anos, poucos deputados da bancada conseguiram indicar nomes para estes cargos ¿ reclama José Janene.