Título: EUROPA INVESTIGA SEQÜESTROS FEITOS PELA CIA
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Fonte: O Globo, 14/03/2005, O Mundo, p. 24

Suspeitos de terrorismo foram capturados em Itália, Suécia e Bálcãs e levados para países onde tortura é tolerada

WASHINGTON. Autoridades de três países europeus ¿ Itália, Alemanha e Suécia ¿ estão investigando se a CIA violou as leis nacionais durante as detenções em solo europeu de supostos terroristas e, ainda, se desrespeitou direitos humanos ao transferir esses suspeitos para países onde a prática de tortura é tolerada, como Egito, Paquistão, Jordânia e Afeganistão, informou o jornal ¿The Washington Post¿.

As operações dessa natureza da CIA no exterior são consideradas pelos EUA práticas legais e efetivas na luta contra o terrorismo, com o apoio de governos locais. Mas legisladores e promotores europeus questionam agora a legalidade dessas ações.

Líder islâmico radical desaparece em Milão

Três investigações oficiais revelaram o envolvimento dos EUA nos seqüestros de quatro homens (dois na Suécia, um na Itália e outro na Alemanha), associados a denúncias de tortura. É provável que os investigadores tenham dificuldades para formalizar acusações, pois terão de identificar os agentes e eles gozam de imunidade diplomática. No entanto, Itália, Suécia e Alemanha não descartam a possibilidade formalizar as acusações.

Uma das investigações se refere ao líder religioso islâmico radical Hassan Mustafa Omar Nasr, conhecido como Abu Omar, que se dirigia a uma mesquita em Milão para rezar em 2003 e jamais foi visto. Veterano de guerra, procurado pela polícia egípcia, a polícia italiana tinha grampeado seu telefone e considerou que Omar sumira por conta própria, apesar de testemunhas do seqüestro. Em abril de 2004, a mulher de Omar recebeu um telefonema do marido, também gravado. Ele contou que fora seqüestrado, levado para uma base na Itália e terminou preso no Cairo, onde fora torturado, mantido nu em temperaturas geladas. Segundo a família, Omar foi novamente preso depois que a conversa foi publicada por jornais italianos.

A embaixada americana em Roma não quis comentar o envolvimento dos agentes da CIA no caso. Parlamentares italianos da oposição cobram explicações do primeiro-ministro Sílvio Berlusconi.

Muçulmano detido nos Bálcãs foi levado para Cabul

Na Alemanha, Khaled Masri, de 41 anos, disse que foi detido durante suas férias nos Bálcãs e levado para o Afeganistão em janeiro de 2004, onde ficou preso durante meses como suspeito de terrorismo. Só foi solto quando seus captores ¿ que, segundo Masri, falavam inglês com sotaque americano ¿ perceberam que ele não era membro da al-Qaeda. Promotores alemães confirmaram sua versão.

Na Suécia, uma investigação parlamentar comprovou que agentes da CIA estavam usando capuzes quando seqüestraram dois egípcios e os levaram para o Cairo. Um deles foi libertado e denunciou as torturas sofridas na prisão. O outro permanece preso. Os detalhes da operação chocaram os cidadãos da Suécia, um dos países líderes na defesa dos direitos humanos.