Título: INFLAÇÃO: BRECHA PARA FREAR JUROS
Autor: Vagner Ricardo
Fonte: O Globo, 12/03/2005, Economia, p. 39

IPCA de 0,59% faz economistas apostarem no fim do ciclo de alta da Selic este mês

A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou praticamente estável em fevereiro e reforçou as apostas dos economistas de que o fim do ciclo de alta da taxa básica de juros Selic será este mês. Ontem, o IBGE informou que o IPCA, usado no sistema de metas de inflação do governo, estacionou de janeiro para fevereiro, passando apenas de 0,58% para 0,59%. Porém, comparado ao 0,74% do IPCA-15 (que refletiu a variação dos preços entre a segunda quinzena de janeiro e a primeira de fevereiro), o índice cheio do mês passado mostrou uma importante desaceleração, constatou o economista Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio.

Segundo ele, esse comportamento abre caminho para que, na reunião da próxima semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central possa aprovar a última alta da Taxa Selic neste semestre. O economista prevê uma elevação de 0,25 ponto percentual, com a taxa subindo para 19% ao ano e, depois, permanecendo estável até retroceder no segundo semestre.

- A nova taxa reforça a tese de que o ciclo de alta dos juros, iniciado em setembro de 2004, está perto do fim - disse ele.

Já o economista Carlos Thadeu de Freitas Filho, do Grupo de Conjuntura da UFRJ, vai mais além. Para ele, não será surpresa se a Selic ficar nos atuais 18,75% ao ano. Argumenta que os preços livres registraram queda ou clara desaceleração em fevereiro.

- O mais provável é a que Selic ainda avance 0,25 ponto percentual, mas não será surpresa se o Copom decidir não mexer na taxa - disse.

Além de vir dentro da previsão do mercado, entre 0,55% e 0,67%, o IPCA de fevereiro, para o economista Alexandre Maia, da Gap Asset Management, confirmou um quadro de melhora qualitativa da inflação. Isso depois do susto provocado pelo IPCA-15 de 0,74% de fevereiro (em janeiro esse índice fora de 0,68%).

- O que o IPCA de fevereiro revela é que o pior já passou e os preços começam a convergir, aos poucos, para a meta da inflação.

O alvo fixado pelo governo para 2005 é de 5,1%, podendo chegar a 7%. Nos últimos 12 meses, o IPCA está em 7,39%.

Em fevereiro, o índice foi puxado pelo grupo educação, responsável quase pela metade da inflação (42%). Sem o reajuste das mensalidades escolares (6,29%), o IPCA teria ficado em apenas 0,34%. Eulina Nunes dos Santos, gerente do Sistema de Índices de Preços do IBGE, lembrou que o item educação ofuscou importantes quedas ou desacelerações nos preços. Alimentos e bebidas, por exemplo, saíram de 0,78% para 0,49%. E houve até deflação (queda de preços) de combustíveis: álcool (1,44%), gasolina (0,79%) e gás de cozinha (1,06%).

- Em janeiro, vários itens mostraram tendência de alta. Já em fevereiro, não, apesar do resultado um pouco maior. Não fosse educação, os preços mostrariam claro viés de desaceleração - disse Eulina.

O ritmo menor de alta dos preços fez o núcleo da inflação (exclui os que mais subiram e caíram) ceder de 0,66% para 0,60%, de janeiro para fevereiro. O indicador é avaliado pelo Copom para fixar a Taxa Selic.

Apesar da tendência de queda, o núcleo da inflação anualizado indica uma taxa de 7,6% a 8% em 2005. Portanto, superior ao teto da meta estabelecida pelo governo (7%).

- A curto prazo, isso não altera o humor do BC. Ele pode optar apenas por adiar o início da queda da Selic, no segundo semestre, depois de um período de manutenção da taxa. Apesar da retórica da meta de inflação de 5,1%, o BC já pode estar perseguindo um piso um pouco maior, na faixa de 5,4% ou 5,5% - disse Carlos Thadeu Filho.

Ipea: dólar reduzirá núcleo do índice

Já para o diretor de Estudos Macroeconômicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Paulo Levy, os núcleos da inflação ainda estão altos e permanecem distantes da meta. Segundo ele, é provável que o núcleo do IPCA caia no segundo trimestre, devido ao movimento de queda do dólar.

Ontem, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) informou que o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) subiu 0,60%. A taxa mensal, fechada no dia 7 de março, é superior ao 0,42% da semana anterior.