Título: NITERÓI, ANTIGA CAPITAL, TAMBÉM FICA DIVIDIDA
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Fonte: O Globo, 16/03/2005, Rio, p. 17
Apesar de ter perdido status, cidade deu a volta por cima e hoje cresce em média 5% ao ano
O debate sobre a fusão dos estados da Guanabara com o Rio de Janeiro, feita em 1975, não acirra os ânimos apenas de cariocas. Do outro lado da Baía de Guanabara, os niteroienses também discutem com paixão o tema. Capital do antigo Estado do Rio até o ano em que aconteceu a fusão dos dois estados, Niterói, segundo historiadores e políticos, sofreu com a perda do prestígio político.
Para Ronaldo Fabrício, primeiro prefeito da cidade após a fusão, a medida caiu como uma bomba no município.
¿ Foi um duro golpe. Da noite para o dia, vimos todos os funcionários públicos estaduais deixarem a cidade e os prédios ficarem vazios. A região perdeu prestígio, se viu perdida em sua vocação e órfã do governo estadual, que cuidava de tudo no município ¿ conta o ex-prefeito.
Setor de serviços gera R$700 milhões por ano
Uma situação que durou pelo menos quinze anos, segundo o historiador e presidente do Observatório Estado do Rio, da UERJ, Cezar Honorato:
¿ Para agravar a perda do prestígio político, a crise econômica que tomou conta do país enfraqueceu ainda mais a economia da cidade, acabando com a indústria de pescado e reduzindo drasticamente o setor naval. Problemas que fizeram muitos pensarem que Niterói caminhava para se tornar um subúrbio do Rio.
Mas a crise, segundo o historiador, passou e a economia da cidade mostrou fôlego, apesar dos prejuízos políticos. O PIB mais do que duplicou, passando de R$2 bilhões nos anos 80 para R$4,5 bilhões no ano passado (o maior do Leste Fluminense e terceiro do estado). O setor de serviços se sofisticou, cresceu e gera R$700 milhões por ano. O crescimento médio de Niterói é de 5% ao ano.
A cidade passou a apresentar o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH/ONU) do Rio e o terceiro do país. Possui a maior renda per capita do estado e o maior índice de mão-de-obra universitária.
¿ Foi a volta por cima, que mostra que a fusão ficou para trás. A cidade construiu sua vocação para o setor de serviços e hoje está muito mais forte do que era nos tempos de capital. E ainda guarda uma certa influência que tinha nos velhos tempos, principalmente sobre o interior ¿ avalia Honorato.
Tanto progresso faz com que muita gente hoje considere irrelevante a discussão sobre uma possível volta da capital para a cidade.
¿ Niterói não precisa mais disso e hoje consegue caminhar com as próprias pernas. A desfusão não seria uma boa medida para o estado ¿ diz o ex-prefeito Ronaldo Fabrício.
O atual vice-prefeito, Comte Bittencourt, acredita que, embora a fusão tenha sido um ato arbitrário dos militares, a separação, hoje, não seria a melhor solução:
¿ É preciso recuperar a economia do estado com políticas de micro-região, criando novas fontes de geração de renda ¿ opina Bittencourt.
Mas há quem ache positivo recuperar o prestígio político:
¿ A volta do poder para Niterói pode fazer com que a cidade e o antigo Estado do Rio fortaleçam suas identidades culturais, hoje apagadas ¿ diz a socióloga e professora Maria de Lourdes Oliveira.