Título: Caso do Iraque tira a credibilidade¿
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Fonte: O Globo, 19/03/2005, Economia, p. 37

Colunista do `New York Times¿ critica escolha americana

NOVA YORK. Você pode dizer o seguinte sobre as qualificações de Paul Wolfowitz para liderar o Banco Mundial: ele está intimamente ligado ao maior projeto de ajuda e desenvolvimento econômico dos Estados Unidos desde o Plano Marshall. Estou falando, é claro, da reconstrução do Iraque. Infelizmente, o que aconteceu lá tira a credibilidade de Wolfowitz.

Mas não vamos nos concentrar na incapacidade administrativa. Vamos falar de ideologia. Antes da guerra do Iraque, os falcões do Pentágono fecharam o planejamento do Departamento de Estado. Isso deixou de fora qualquer um com experiência em desenvolvimento. Como resultado, o governo americano foi ao Iraque, determinado a mostrar as virtudes do livre mercado radical, sem ninguém para avisar dos problemas prováveis.

De fato, a ideologia econômica pode explicar por que os americanos não agiram rapidamente para realizar eleições depois que invadiram Bagdá. Isso poderia assegurar aos iraquianos que os EUA não tinham a intenção de instalar um regime-fantoche, e tornaria mais fácil debelar as rebeliões no país, mas não foi feito. Jay Garner, o primeiro administrador americano do Iraque, queria eleições o mais rapidamente possível, mas a Casa Branca preferiu primeiro privatizar o petróleo e outras indústrias antes de passar o controle do país.

A tentativa de tornar o Iraque um país economicamente liberal foi uma rejeição americana à opinião pública mundial. Visões dogmáticas da superioridade do livre mercado estão perdendo espaço. Os latino-americanos são os mais desiludidos. Nos anos 90, eles compraram as idéias econômicas liberais do Consenso de Washington que, devemos dizer, é obra da administração Clinton, de Wall Street e de think tanks conservadores. Não deu certo.

Isso acabou levando ao poder vários governos que rejeitam essas políticas, como no caso da Venezuela e da Argentina, ex-queridinha de Wall Street. E onde Wolfowitz se encaixa nisso tudo? O aconselhamento do Banco Mundial é tão importante quanto o dinheiro que ele empresta ¿ mas só se os governos aceitarem esse conselho. Se Wolfowitz disser que tal política de livre mercado funciona, será recebido com tanto ceticismo como se tivesse dito que determinado país tinha armas de destruição em massa. Moisés Naím, editor da ¿Foreign Policy¿, disse que a nomeação de Wolfowitz torna o Banco Mundial o Banco dos EUA. Certos ou não, os países em desenvolvimento verão a indicação de Wolfowitz como sinal de que os EUA continuam tentando impor uma política econômica que consideram um fracasso.

Paul Krugman é colunista do `New York Times`