Título: Tempo, um senhor tão bonito
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 20/03/2005, Panorama Político, p. 2

O presidente Lula tem coçado muito a barba. Repete o gesto, com impaciência, sempre que o assunto é reforma ministerial, tema que está em sua agenda desde novembro. Ela andou quase pronta, mas entre quinta e sexta-feira o presidente sentiu-se incomodado com algumas soluções e empacou. Dificilmente anunciará as mudanças no governo amanhã, como já foi programado

O fim de semana, na Granja do Torto, será novamente consumido em reflexões ou conversas sobre a reforma. Em algum momento, ela será anunciada mas restará saber se vem tarde ou se ainda em tempo. Tancredo Neves, tão recordado estes dias, ensinou que em política é importante não apenas tomar a decisão correta, mas também tomá-la na hora certa. A reforma ministerial de Lula já teve, sem dúvida, momentos mais propícios, em que teria sido feita com mais facilidade, a menor custo e produzido resultados mais seguros. O melhor deles foi logo depois da eleição municipal, mas Lula quis esperar mais.

E assim, como uma doença degenerativa, os desencontros no interior da coalizão governista, agravados na campanha, foram aumentando e chegaram aos fatos recentes ¿ derrotas na eleição da Mesa, perda do controle sobre a pauta e sobre o voto dos aliados, que passaram a aprovar o que lhes interessa ¿ diretamente ou eleitoralmente.

Quando Lula coça a barba, expressa seu desconforto ante a necessidade de fazer mudanças, e sobretudo, de demitir velhos companheiros. Perder o poder é algo que só eles, que já o provaram, sabem o que significa. Para alguns é duro perder a notoriedade, para outros, as facilidades, e para outros ainda, as vantagens irreveladas. Mais do que isso, entretanto, o presidente enfrenta dúvidas e incertezas sobre a eficácia do esquema que está montando. Não quer fazer uma reforma e errar.

Receia, por exemplo, que na Coordenação Política o deputado João Paulo dê curso à disputa com Mercadante e Marta Suplicy pela candidatura ao governo de São Paulo. Os paulistas, sempre eles. Mas a disputa vai acontecer com João Paulo dentro ou fora do Ministério, e alternativas à vista, não parece haver.

Tirar Olívio Dutra da pasta de Cidades para entregá-la à senadora Roseana Sarney também é uma hipótese que Lula aceitou no primeiro momento mas depois repensou. Levou Olívio na viagem a Sergipe, na sexta-feira, mas não tratou de seu destino. Por outro lado, não sabe o que oferecer à senadora.

Viajou também com Humberto Costa, da Saúde, e nada lhe disse. Voltou a ter dúvidas sobre sua saída depois do êxito da intervenção na saúde do Rio. O chamado ¿partido sanitarista¿, movimento de profissionais de saúde altamente organizado e mobilizado, entrou em campo para defender o ministro que até já combateu.

Ficaram assustados com a nomeação quase certa de Ciro Gomes, cujas idéias sobre a área desconhecem inteiramente. Os e-mails do Planalto foram abarrotados nas últimas horas por mensagens em favor de Costa. Antes, a chuva foi de protestos contra a portaria do ministro liberalizando o aborto em casos de estupro e contra a MP 232, a que aumenta impostos de prestadores de serviços.

Estes são os nós que precisam ser desatados. Há muita gente querendo entrar no Ministério, o que é um sinal da força do governo. Mas há também os que se cansaram de esperar e perderam o interesse, como setores do PTB e do PP. O pior para Lula é se a reforma, uma vez feita, não funcionar como cola agregadora entre os aliados, para agora e para 2006. Muito justo

Na sexta-feira, o presidente Lula encaminhou ao Senado, para apreciação, o nome do general Sérgio Ernesto Alves Conforto, indicando-o para uma vaga de ministro do Superior Tribunal Militar. Foi o general que, 18 depois, após uma série de reportagens do GLOBO, reabriu o caso do atentado do Riocentro, levando à Justiça o capitão Wilson Machado, inocentado pelo inquérito do regime militar. Na noite de 30 de abril de 1981, ele estava no carro em que uma bomba explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário, matando-o. Ambos trabalhavam no DOI ¿ braço repressivo do Exército.

A ARQUEÓLOGA Niède Guidon nos emocionou recentemente, na entrega do prêmio Faz Diferença, conferido pelo GLOBO, ao falar de sua luta pela preservação do patrimônio cultural da Serra da Capivara. Agora, ela e seus colegas da Fundação Museu Nacional do Homem Americano estão sendo ameaçados de morte. Ao planejar o assentamento de 200 posseiros que vivem na área, o Incra atraiu mais sem-terra, e também caçadores e invasores que têm destruído os sítios arqueológicos. Esta semana, uma comissão parlamentar liderada pelo deputado Paulo Delgado vai ao parque, no Piauí, verificar o que se passa e cobrar providências do governo. Num país com tanta terra, deve haver locais para assentamentos mais distantes de um patrimônio como aquele.