Título: A COR DO CAMPUS
Autor:
Fonte: O Globo, 21/03/2005, Opinião/Editorial, p. 6
Comparando os dados do Inep (Questionário Socioeconômico do Exame Nacional de Cursos) com os do IBGE, é inescapável a conclusão de que a cor do campus brasileiro é diferente da cor de nossa sociedade. Os brancos na população geral somam 52%, os do campus 72,9%; os negros da sociedade somam 5,9%, os do campus 3,6%; os pardos da sociedade somam 41%, os do campus 20,5%. Nas regiões, as diferenças seguem significativas. No Norte, a diferença entre o campus e a sociedade é de 14,3%, no Nordeste 25,9%, no Sudeste 16,1%, no Sul 8,4%, e no Centro-Oeste 19,2%, sempre a mais no campus.
Em todas as regiões, a proporção de brancos no campus é superior à sua representação na população. As maiores discrepâncias estão entre os pardos. No país há duas vezes mais pardos na população do que na educação superior. No Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste a representação de pardos no campus é 20% menor do que sua representação na população; no Sudeste e no Sul, a representação na população é mais do que o dobro da representação no campus. Mesmo no Nordeste, que tem mais de 70% de negros e pardos, o campus mantém-se rigorosamente branco. O Nordeste tem 6,3% de negros na população e 6,2% no campus; o Sudeste, 6,8% de negros na população e a metade (3,4%) no campus; o Sul, 3,6% de negros na população e menos da metade (1,4%) no campus; e, por fim, o Centro-Oeste, 4,5% de negros na população e 4,3% no campus.
Os dados também indicam que vem diminuindo a representação de brancos no campus (menos 8%), enquanto cresce a de negros e pardos (mais 2% e mais 6%, respectivamente). A representação de amarelos e indígenas se manteve estável, com pequena diminuição em ambos os grupos. Quando, porém, comparamos os percentuais históricos de brancos, negros e pardos no campus com os da população, percebemos que permanece grande a diferença entre ambos e que há um longo caminho a ser trilhado até que negros e pardos tenham no campus a mesma representação da sociedade. Com o crescimento médio da população de negros e pardos no campus abaixo de 1% ao ano, mantidos os níveis atuais, o Brasil levaria 20 anos para alcançar a proporcionalidade. Como desperdiçar cérebros é insustentável e como o Brasil que todos queremos precisa contar já com o pleno potencial de todos os cidadãos, fica evidente que a adoção temporária das cotas se justifica plenamente.