Título: Na fogueira
Autor: Ilimar Franco
Fonte: O Globo, 27/03/2005, Panorama político, p. 2
O governo Lula terá um duro teste pela frente nos próximos dias: a votação da Medida Provisória 232, que aumenta os impostos do setor de serviços e da atividade agrícola. O governo não pode perder esta votação. Mas ela está marcada pelo presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), para esta terça-feira, quando ainda não estará reconstruída a maioria governista na Câmara.
Esta situação nunca seria criada se o PT, em vez de brincar de dois candidatos, tivesse ganho as eleições para a presidência da Câmara. Quanto a isso não há mais o que fazer. Resta ao governo a boa vontade do presidente da Câmara. O ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, e o líder do governo, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), vão fazer um apelo a Severino Cavalcanti para que adie a votação. Se isto não der certo, o ministro Aldo Rebelo já decidiu que a votação só será enfrentada se os líderes dos partidos aliados garantirem que há votos para sua aprovação. Do contrário, irá propor ao presidente da República que o projeto de conversão da Medida Provisória se restrinja a corrigir a tabela do Imposto de Renda. Quanto ao restante do texto, vai sugerir que ele seja enviado novamente para discussão na Câmara com a apresentação de um projeto de lei.
A oposição está aproveitando o momento de desorganização da base do governo para tentar impor-lhe uma derrota na Câmara. O PSDB e o PFL, nas últimas semanas, transformaram o aumento da carga tributária na principal peça de acusação contra o governo Lula. A tese tem a simpatia de amplas parcelas da sociedade e das elites econômicas do país. Mesmo com as mudanças feitas pelo relator Carlito Merss (PT-SC), livrando alguns setores da mordida do leão, muitos deputados terão dificuldades de apoiá-la.
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), defende que o governo tenha prudência. Com a situação da economia sob controle, o senador tem afirmado que a oposição está empenhada em criar e estimular crises políticas.
¿ A oposição está radicalizando suas posições. A tática dela é tentar desmontar o ambiente econômico favorável criando um clima de instabilidade política.
Este clima de enfrentamento com a oposição pode estimular uma maior cooperação entre os governistas. É possível que a necessidade imposta pela realidade, a de reconstruir a maioria, ponha um freio na briga intestina que levou à desorganização da base governista na Câmara.
Vai ter painel. O presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE), recorreu ao plenário da resolução da Mesa que aumentou a verba de gabinete na Câmara em 25%.
Depois do PTB, Lula receberá PL e PSB
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai receber dirigentes e líderes do PL e do PSB esta semana. Dará seqüência aos encontros com os partidos aliados e que começaram com a reunião com o PTB.
Nessas conversas, o presidente Lula está debatendo com os aliados suas reivindicações para que continuem dando apoio à governabilidade no Congresso, e também conhecendo as demandas dos partidos para que apóiem sua reeleição à presidência em 2006.
O ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, foi quem vocalizou, na quarta-feira, as preocupações dos parlamentares trabalhistas com as eleições para a renovação de seus mandatos. O ministro disse que eles estão apreensivos com a forma desigual como terão de enfrentar as eleições e os candidatos do PT. Argumentou que é desproporcional à sua representação no Congresso a presença de petistas em cargos federais nos estados. O presidente ouviu, afirmou que já o tinham alertado, e que tomará providências para que os aliados tenham mais espaço no governo.
Bastidor
Vítima de ataque cerrado do PT, o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, recebeu apoio de onde não esperava. Na primeira audiência que teve com o presidente Lula, após se eleger para a prefeitura de São Paulo, o tucano José Serra perguntou: ¿Ajuda ou atrapalha fazer um abaixo-assinado pela permanência do ministro Aldo Rebelo?¿. O presidente nem chegou a responder. O ministro se adiantou: ¿Ajuda¿.
IRONIA do ministro de Ciência e Tecnologia,< Eduardo Campos, nos dias que antecederam a reforma. ¿Estou me sentindo mal, ninguém quer meu ministério¿, disse, tendo ao lado os ministros da Coordenação Política, Aldo Rebelo, e o ministro das Comunicações, Eunício Oliveira.
SATISFEITO com o desfecho da reforma ministerial, o deputado Paulo Delgado (PT-MG), comemorou: ¿O presidente Lula não trabalha com fato consumado, não aceita imposições¿.
E-mail para esta coluna: ilimar@bsb.oglobo.com.br
Aguardem
O novo ministro da Previdência, Romero Jucá, recebeu o aval do presidente Lula para fazer ajustes administrativos para acabar com a disputa entre o ministério, o INSS e a Dataprev. Mesmo assim decidiu que fará as mudanças sem angústia, para não ser injusto com ninguém. Por hora, estão mantidos o presidente da Dataprev, José Jairo Ferreira Cabral, e o presidente interino do INSS, Samir de Castro Hatam.