Título: Todos no beco
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 29/03/2005, Panorama Político, p. 2

Em um mês e meio na presidência da Câmara o deputado Severino Cavalcanti reforçou a vulgaridade na política, fez aumentar a desaprovação ao Legislativo e a repulsa aos políticos em geral. O centralismo de suas decisões fez surgir um movimento dos líderes para enquadrá-lo e alimenta até mesmo especulações, reservadas e obscuras, sobre a hipótese de seu impeachment.

Isso, entre os partidos. Na sociedade, crescem movimentos difusos, como este que circula na internet, propondo o uso de tarjas ou roupas pretas nesta terça-feira em protesto ¿contra a farra na Câmara¿.

A verdade é que Severino tornou-se uma força fora de controle que a todos preocupa. Pois com ele, nesta marcha, todos perdem.

Os líderes governistas articulam-se para cobrar-lhe o compartilhamento de decisões sobre a pauta legislativa com o Colégio de Líderes, como prevê o regimento. Esta é uma queda de braço que está apenas começando. Já o PFL e o PSDB aproximam-se dele com o claro intuito de atraí-lo para uma aliança, agora que ele entrou de vez em rota de colisão com o governo.

Não tendo conseguido ainda recompor e organizar sua maioria, o governo é mesmo a primeira vítima do estilo centralista e autocrático de Severino. Hoje ele levará a votação, contra a vontade dos líderes governistas e do Planalto, a MP 232. Se não encontrar uma solução ¿ a aprovação de um requerimento de adiamento ou mesmo a obstrução, que é uma arma legítima ¿ o governo marchará para a derrota certa.

Mas não só o governo enfrenta desconfortos e constrangimentos. No próprio PP há gente séria que se declara envergonhada de pertencer ao partido, agora que ele se tornou ¿o partido de Severino¿. Os danos à imagem da Câmara, que alcançam por tabela o Senado, afetam toda a classe política, enfraquecem os partidos e a própria representação popular. Isso é ruim para todos, inclusive para o PSDB e o PFL, que ajudaram o baixo clero a eleger o presidente da Câmara.

Nos últimos dias circularam rumores de que PSDB e PFL teriam discutido a hipótese de pedirem o afastamento de Severino. Pretextos podem ser encontrados no regimento. Por exemplo, o de que ele não estaria zelando ¿pelo prestígio e o decoro da Câmara¿, uma de suas atribuições regimentais. Neste caso, ele seria sucedido pelo primeiro vice-presidente, o pefelista Thomaz Nonô, que já vem presidindo boa parte das sessões e tem imposto algumas dificuldades ao governo. Tucanos e pefelistas, entretanto, dizem que o PT e os governistas é que pensam nisso, pois neste caso haveria nova eleição, e um petista poderia ser eleito.

Seja como for, este tipo de especulação que toma conta dos corredores da Câmara dá a medida dos incômodos por que todos passam. Ontem à noite Severino se reuniu com os líderes Alberto Goldman, do PSDB, e Rodrigo Maia, do PFL, que o teriam advertido sobre a temeridade de seu isolamento político. Entre os de sua tropa de choque, ouve-se afirmações estupidamente paranóicas, como a de que estaria havendo uma aliança entre o Planalto e a imprensa para desestabilizá-lo.

Tudo faz crer que o bólido em movimento será detido, ou se deterá, numa tomada de consciência ante o risco de uma colisão perigosa.

Fora do fundo

Foi calculada e pesada a decisão de anunciar ontem a não renovação do acordo com o FMI, medida já amadurecida há 15 dias, que vinha sendo discutida desde janeiro.

O ato em si foi perfeitamente técnico, isento de qualquer foguetório ideológico, de qualquer declaração sugerindo um retorno do PT às suas antigas posições em relação ao Fundo. A entrevista do ministro Palocci não fugiu um milímetro do economicamente correto: o passo foi dado porque o país alcançou condições que dispensam a renovação do acordo. Logo, porque o governo trabalhou bem, conquistou esta condição e manterá o zelo fiscal. No site do PT, não se viu qualquer declaração politizando a questão, apenas o frio registro da decisão. Tudo isso foi discutido minuciosamente com o presidente Lula na reunião matinal de ontem da Coordenação Política. Inclusive os termos da exposição de motivos da Fazenda. Serve ainda o anúncio para lançar um ingrediente positivo numa agenda cheia de assuntos negativos, sobretudo na área política. Hoje mesmo o ministro Palocci vai ao Senado falar sobre as operações irregulares da Prefeitura de São Paulo. Mas acabará falando sobre a saída do Fundo, não há dúvida.

Mas embora a decisão tenha tido o apoio do ex-presidente Fernando Henrique, ou pelo menos sua concordância, é interessante comparar os argumentos do governo com os do economista José Roberto Afonso, um dos principais formuladores do PSDB. Há três dias ele escrevia sobre as mudanças no cenário externo que podem levar ¿a um quadro complicado¿. Se no melhor dos cenários, dizia ele, os juros foram às alturas, com o cenário piorado (pelas mudanças na política de juros americana), o que fará a equipe econômica? Concluía dizendo que ¿será inevitável, agora, a renovação do acordo com o FMI.¿

LULA costura a aliança para 2006. Recompõe-se com o PMDB do B, acerta-se com o PTB, vai conversar com o PSB e o PL. De fora, apenas o PP, lamentam-se os pepistas, culpando Severino.

A GOVERNADORA Rosinha estará hoje com o ministro Palocci, discutindo reforma tributária e as pendências do Rio. A orientação do secretário Garotinho é pragmática: conseguir do governo todas as concessões que sejam úteis ao governo estadual mas sem firmar qualquer compromisso de ordem política. Ao contrário dos outros dissidentes, ele não pensa em reaproximação com o governo Lula. Muito menos em aliança para 2006.

A HORA é dura para o governo. Entre hoje e amanhã, tem que aprovar ou desistir da MP 232, pois no dia 1º começam a ser cobradas as novas alíquotas de contribuição. Se depois disso a medida cai, está criada uma baita confusão jurídica.