Título: O CUSTO SEVERINO: PRESIDENTE DA CÂMARA RECUSA APELO DE GOVERNISTAS PARA ADIAR VOTAÇÃO SOBRE IMPOSTO DE RENDA
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Fonte: O Globo, 29/03/2005, O País, p. 10
Severino ameaça votar MP: `Não tiro da pauta¿
Cresce insatisfação de representantes dos partidos com comportamento do deputado, que decide sem colégio de líderes
BRASÍLIA. A queda-de-braço entre o governo e o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), acirrou-se ontem com as negociações para adiar a votação da MP 232, que reajusta a tabela do Imposto de Renda das pessoas físicas e aumenta impostos de prestadores de serviço. Severino ignorou as negociações e disse que não adianta pedir, porque não vai retirar a proposta da pauta de hoje.
Com risco de derrota na votação, o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, passou a tarde no Congresso em reuniões com Severino, líderes do governo e o presidente do Senado, Renan Calheiros(PMDB-AL). Antes mesmo de o ministro chegar a seu gabinete, o presidente da Câmara avisou que vai manter a medida na pauta e, mesmo que os governistas consigam aprovar requerimento de adiamento hoje, a matéria volta para a pauta amanhã. Severino decidiu sozinho sobre a votação de matérias polêmicas.
¿ Se o líder Chinaglia pedir para tirar (a MP 232), eu não tiro! ¿ afirmou Severino antes do encontro com Aldo e com o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). ¿ O governo também não pode retirar a MP. Minha inclinação é botar para votar. Vou estar atento até o último momento, porque a sociedade não aceita mais adiar essa medida.
Chinaglia tentou convencer Severino, mas não conseguiu
Chinaglia tentou fazê-lo mudar de idéia, sem sucesso.
¿ Ele disse que apresentássemos o requerimento de adiamento e ele submeteria ao plenário. O governo usará as alternativas regimentais para evitar a votação ¿ disse Chinaglia.
Cresce entre os líderes de todos os partidos a insatisfação com o comportamento de Severino, que decide pessoalmente a pauta de votação. Eles querem a revitalização do colégio de líderes, com representantes dos partidos. O líder do PTB, José Múcio (PE), lembra que são 40 dias de gestão Severino sem reunião do colégio de líderes:
¿ Severino é bem intencionado. Mas me preocupo que ele esteja ouvindo alguém que não conheça a real necessidade do colégio de líderes, um amortecedor entre o presidente e os parlamentares.
Com a ida ao Congresso, o ministro Aldo Rebelo encerrou ontem um período de semanas de isolamento. Para marcar a volta às funções de articulador do governo, repetiu o roteiro percorrido ao assumir o cargo, 14 meses atrás.Visitou os líderes do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia, e no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), e esteve com os presidentes das duas Casas, Severino Cavalcanti e Renan Calheiros.
Aldo Rebelo: ¿Estamos submetidos a pressões¿
Ele se permitiu um comentário sobre os últimos dias:
¿ A vida política, a vida pública, é de instabilidades previsíveis. Estamos submetidos constantemente a pressões.
Diante do desmantelamento da base no Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende assumir a coordenação política, ao lado de Aldo, e exigir dos ministros ação permanente com deputados e senadores para identificar problemas e apresentar soluções. A estratégia foi posta em prática ontem à noite, quando Lula recebeu dirigentes do PL e do PSB.
¿ O presidente Lula precisa incluir os ministros políticos na articulação da base. Envolvendo todo mundo, é possível fazer novo diagnóstico do quadro, pegar o pulso de cada partido e reverter a situação ¿ observou Renan Calheiros.