Título: BANCO CENTRAL ELEVA PREVISÃO PARA IPCA DESTE ANO
Autor: Geralda Doca
Fonte: O Globo, 30/03/2005, Economia, p. 27

Relatório projeta inflação de 5,5%, acima do objetivo de 5,1%, e deixa claro que instituição considera taxa de longo prazo

BRASÍLIA. O Banco Central (BC) revisou para cima a expectativa de inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (o IPCA, que serve como referência para o sistema de metas de inflação do governo) para 2005, segundo o primeiro Relatório Trimestral de Inflação do ano, divulgado ontem pela instituição. Mesmo com o arrocho da política monetária, que elevou a taxa básica de juros da economia, a Selic, para 19,25% ao ano, o BC espera que o índice de preços feche este ano em 5,5%. A nova projeção representa uma alta de 0,2 ponto percentual em relação à estimativa feita em dezembro de 2004 e está acima do objetivo do BC que é de 5,1% para 2005.

No entanto, o BC deixou claro no relatório que está observando mais atentamente a inflação de longo prazo, tanto nos próximos 12 meses como para o consolidado em 2006 ¿ quando a taxa deverá bater os 5% em março e os 3,8% em dezembro. A instituição descarta ainda pressões sobre os preços advindos de problemas de oferta, alegando que houve uma desaceleração no ritmo de crescimento da economia, com conseqüente adequação da utilização da capacidade instalada das indústrias à demanda.

Apesar do aumento da expectativa de inflação para este ano, o relatório aponta queda em quase todas as projeções de IPCA para 2006. Neste caso, os percentuais ficaram abaixo dos previstos no relatório anterior do BC, de dezembro de 2004. Para analistas, o BC indicou no relatório divulgado ontem que a tendência é de manutenção dos juros básicos nas próximas reuniões, salvo deterioração severa do cenário internacional, que tem perspectivas de elevação mais forte dos juros básicos dos Estados Unidos e aumento nos preços do petróleo e de commodities.

¿ Esse relatório ratifica a intenção do BC de encerrar o ciclo de alta de juros se não houver piora do mercado externo ¿ disse Elson Teles, economista da Fides Asset Management, acrescentando que, ao deslocar o foco da inflação para os 12 meses à frente e não no ano calendário de 2005, o BC dá argumentos técnicos para interromper a elevação da Selic.

¿ Não acredito numa elevação da Selic no próximo mês. O cenário mais provável é de estabilidade da taxa, com tendência de queda a partir do segundo semestre deste ano ¿ disse o economista Eustáquio Reis, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Juros ainda não alcançaram efeito total, diz Bevilaqua

Para o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, o relatório do BC considera que, apesar da piora no mercado internacional nas últimas semanas, o quadro é favorável:

¿ A situação do balanço de pagamentos (saldo comercial folgado em 2005) permite ao câmbio absorver sem maiores depreciações alguma possível turbulência internacional.

Segundo o diretor de Política Econômica do BC, Afonso Bevilaqua, a instituição aumentou a projeção de inflação deste ano devido ao aumento de preços registrado no primeiro trimestre, acima do previsto. Entre eles, altas nos preços dos produtos agrícolas, além de aumento de tarifas administradas e custos escolares. Ele destacou também que os juros altos ainda não repercutiram totalmente na economia e que isso deverá ocorrer num intervalo de dois a três trimestres.

¿ Ainda não observamos todo o efeito da política monetária na inflação ¿ explicou.

Para o próximo ano, o BC espera que o IPCA fique em 3,8%, menor do que os 4% previstos anteriormente e abaixo da meta de inflação fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 4,5%. Na nova projeção para 2005, o BC leva em consideração que a Selic em 19,25% e a taxa de câmbio em R$2,70 permanecerão estáveis.