Título: MORTOS EM TERREMOTO JÁ CHEGAM A MIL
Autor:
Fonte: O Globo, 30/03/2005, O Mundo, p. 33
Mau tempo e danos nos aeroportos das ilhas indonésias de Nias e Simeulue dificultam chegada de ajuda
GUNUNG SITOLI, Indonésia. Passado o temor das tsunamis, que deixou toda a região do Oceano Índico em pânico durante a madrugada de segunda para terça-feira, os indonésios começam a contabilizar os estragos do violento terremoto que atingiu as ilhas de Nias e Simeulue, nas costa ocidental de Sumatra. Ontem à tarde, as primeiras equipes de socorro chegaram às duas ilhas, onde as estimativas oficiais indicam pelo menos mil mortes, a maioria em Nias, cuja capital, Gunung Sitoli, de 30 mil habitantes, foi severamente atingida.
A mobilização de recursos humanos e materiais desta vez foi mais rápida do que no maremoto de 26 de dezembro, pois muitas agências humanitárias e o governo da Indonésia já estão trabalhando na reconstrução do norte de Sumatra, devastado por outro terremoto e pelas tsunamis no fim de 2004. No entanto, a aterrissagem dos aviões com assistência foi dificultada pelo mau tempo e pelos danos no aeroporto de Gunung Sitoli causados pelo sismo de 8,7 graus na escala Richter, o oitavo mais violento desde 1900. A pista ficou cheia de rachaduras e as torres de controle desmoronaram. Três navios da Marinha indonésia estavam a caminho com material médico.
¿ O sistema de abastecimento de água entrou em colapso e há enormes buracos nas ruas ¿ contou a brasileira Alessandra Villas-Boas, da ONG Oxfam, uma das primeiras a chegarem a Nias.
Faltam água, eletricidade, médicos e recursos em Nias
Ainda com pouca ajuda externa, os sobreviventes lutavam desesperados ontem para livrar parentes e amigos presos nos escombros dos prédios que desabaram. O hospital de Gunung Sitoli foi bastante danificado, prejudicando ainda mais o socorro aos feridos pelos escassos médicos disponíveis. Ontem, o número de cadáveres recuperados na ilha de Nias chegava a 330.
¿ Essa conta vai aumentar porque não conseguimos evacuar muitos prédios e há muitos mortos dentro deles ¿ lamentou Binahati Bahea, funcionário do governo local.
Três franceses e dois suecos estão entre os desaparecidos na ilha, que se tornou uma popular destinação turística de surfistas nos últimos anos.
Em Simeulue, outra ilha atingida, cerca de cem corpos foram recuperados ontem. O aeroporto local também foi danificado. Uma equipe de médicos e enfermeiros foi enviada às ilhas Banyak para atender aos feridos, embora ainda não se saiba com que intensidade o pequeno arquipélago foi atingido.
O epicentro do terremoto de anteontem foi a 160 quilômetros a sudeste do de dezembro, que gerou as tsunamis que mataram quase 300 mil pessoas em vários países da Ásia. Segundo centros sismológicos internacionais, o tremor causou pequenas tsunamis, mas elas tomaram a direção do sul do Oceano Índico e se dissiparam em alto-mar. Ontem houve dois abalos secundários de 5,7 e 5,8 graus.
Países mais bem preparados para enfrentar nova tragédia
De qualquer modo, os países da região mostraram um preparo mínimo para enfrentar uma nova catástrofe do gênero, com sistemas de alerta que, mesmo precários, avisaram as populações das áreas costeiras, que se puseram em fuga. Três meses atrás, os moradores do litoral foram apanhados de surpresa pelas ondas gigantes.
¿ Não somente havia uma vigilância e informação foi fornecida aos países, como também os governos advertiram diretamente as autoridades locais ¿ elogiou Jan Egeland, subsecretário-geral da ONU para operações humanitárias.