Título: PAPA PIORA E SEU ESTADO É GRAVE
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Fonte: O Globo, 01/04/2005, O Mundo, p. 32
João Paulo II teve uma parada cardíaca hoje de manhã e recebera a unção dos enfermos
CIDADE DO VATICANO
Em lenta agonia desde o início de fevereiro, quando sérios problemas respiratórios o levaram ao hospital por duas vezes, o Papa João Paulo II teve uma acentuada piora em seu estado de saúde na manhã de hoje, quando sofreu uma parada cardíaca provocada por uma infecção generalizada, segundo o porta-voz do Vaticano, Joaquim Navarro-Valls. Apesar disso, ele está lúcido e comungou, mas se recusou a ser levado para o hospital. Ontem, após a detecção de uma infecção urinária, que baixou a pressão, o Papa teve febre alta e teria recebido a unção dos enfermos, segundo a imprensa italiana. O temor, agora, é que o Papa não reaja aos antibióticos.
A Santa Sé não confirmou se o Papa recebeu o sacramento, que lhe fora dado em 1981, após o atentado na Praça de São Pedro. Dando o tom das expectativas que cercam o Vaticano, o cardeal Christoph Schoenborn, arcebispo de Viena, declarou mais cedo que o Pontífice estava ¿se aproximando, até onde se pode ver, do fim de sua vida¿.
O estado de saúde de João Paulo II ¿ que sofre de mal de Parkinson em estágio avançado ¿ se agravou um dia depois de ele receber uma sonda pelo nariz para facilitar sua alimentação. Ele já perdeu 19 quilos desde fevereiro, quando foi submetido a uma traqueostomia para implantar uma cânula na garganta e poder respirar. O Papa vem sendo atendido num centro médico montado no Palácio Apostólico, mas um apartamento está pronto na Clínica Gemelli, em Roma, onde ele esteve internado nas outras vezes, e uma equipe está de prontidão. Ontem, o porta-voz da Santa Sé não se estendeu muito ao explicar as últimas complicações no organismo do Papa, dizendo que a situação médica estava controlada pelos médicos.
Fiéis rezam pela saúde do Pontífice
Um religioso do Vaticano, que preferiu se manter no anonimato, foi mais explícito:
¿ Estamos de prontidão para qualquer coisa. Quase ninguém acha que a situação vai melhorar, mas todos esperam um milagre.
Centenas de fiéis se aglomeraram na Praça de São Pedro quando se espalharam as notícias sobre a gravidade de estado de saúde do Papa. Confundido por um falso anúncio de morte do Pontífice, o Senado mexicano chegou a fazer um minuto de silêncio. Em Wadowice, cidade natal de João Paulo II na Polônia, dezenas de pessoas se dirigiram já de madrugada para a catedral local.
¿ Hoje a vida dele está nas mãos do Senhor, é nele que devemos confiar ¿ disse a católica Zofia, de 73 anos.
Anteontem, João Paulo II chegou a aparecer por quatro minutos numa janela do Palácio Apostólico para saudar a multidão que gritava seu nome na Praça de São Pedro. Ele abençoou os fiéis e tentou falar, mas emitiu apenas sons ininteligíveis e o microfone diante dele foi rapidamente retirado. Segundo uma fonte do Vaticano, a imprensa oficial da Santa Sé recebeu a recomendação de evitar fotografias e imagens do Papa em primeiro plano.
Papa quer viver artificialmente
Uma outra fonte do Vaticano declarou mais cedo, antes das notícias de que o Pontífice tinha piorado, que o Papado estava entrando em uma nova fase e que João Paulo II teria de enfrentar o que parece ser ¿um permanente estado de saúde precária¿. Segundo a fonte, ele ainda é informado sobre assuntos da Igreja e é capaz de se comunicar por meio de escrita ou de palavras. Numa entrevista à Rádio Vaticano, o cardeal italiano Ersilio Tonini corroborou a informação.
¿ O Papa João Paulo II mantém a capacidade de compreensão e avaliação, sua sensibilidade e todas as suas aptidões ¿ disse ele.
Em meio à expectativa gerada pela deterioração da saúde de João Paulo II, ganhou destaque ontem uma declaração em que ele deixou claro querer ser mantido vivo artificialmente se for necessário. O desejo do Pontífice ficou implicitamente expresso em 2004 quando num seminário ele afirmou que tratar de pacientes em estado vegetativo é ¿uma obrigação moral¿.
João Paulo II modificou a tradicional orientação da Igreja Católica sobre o tratamento de pacientes perto da morte quando disse, em março de 2004, que alimentação por sondas é um tratamento normal e não uma medida extraordinária que pode ser detida se as esperanças de recuperação se esvaírem. Na conferência sobre ética em Roma, ele afirmou que ¿o valor intrínseco e a dignidade pessoal de cada ser humano não mudam, a despeito de qual seja a situação concreta de sua vida¿. Segundo João Paulo II, negar alimentos e água a um doente em estado vegetativo equivaleria a ¿eutanásia por omissão¿.
¿ A declaração do Papa deve ser considerada como o equivalente de seu testamento em vida ¿ disse o padre Thomas Reese, editor do semanário jesuíta americano ¿America¿, referindo-se a um documento cada vez mais popular nos EUA em que a pessoa indica por escrito se quer ser mantida viva por meios artificiais se for necessário.
Por sua vez, o vaticanista Vittorio Messori, que co-escreveu com o Papa o livro biográfico ¿Cruzando o limiar da esperança¿, disse acreditar que o Pontífice, qualquer que seja a evolução de seu estado de saúde, optará por continuar à frente da Igreja.