Título: O SINETE DA TRAPAÇA
Autor: D. Eugenio Sales
Fonte: O Globo, 02/04/2005, O País, p. 7
Alguns temas retornam periodicamente ao cenário nacional, graças às facilidades com que os meios de comunicação social fazem surgir do esquecimento, da escuridão à luz. Há poucas semanas, veio à tona na Câmara dos Deputados o projeto da liberalização da jogatina. Aos interesses de uma pequena minoria sacrifica-se o bem-estar da coletividade. O mesmo se diga dos entorpecentes. Aliás, anos atrás, uma autoridade no assunto escreveu uma matéria sob o título ¿O mito da descriminação das drogas: vários dos defensores da descriminação estão, muitas vezes, entre os usuários¿. O mesmo se pode afirmar quando se retorna à questão da liberalização dos jogos de azar.
Graças a Deus, as inúmeras tentativas de dar foros de ¿cidadania¿ à jogatina têm fracassado, até o momento em que redijo estas linhas. Qualquer concessão ao vício é um contra-senso. Parece-me oportuno recordar Rui Barbosa: ¿De todas as desgraças que penetram no homem pela algibeira e arruínam o caráter pela fortuna, a mais grave é, sem dúvida, essa: o jogo!¿ A ineficácia do combate a esse mal é transformada em argumento em favor da legalização. A ser verdadeiro esse raciocínio, todo o Código Penal deveria ser suprimido, pois nossos cárceres estão cheios dos que o infringem.
Jamais se corrige o mal autorizando-o por ser difícil impedi-lo. A restauração do tecido social apenas é possível com elementos que moldem o caráter dos indivíduos e corrijam suas atitudes prejudiciais à sociedade, na qual estão inseridos. Assim a jogatina, tentativa de enriquecer ou ter meios de sobreviver sem trabalhar, só será vencida por uma profunda modificação resultante de princípios morais.
Repito, sobre a oficialização do jogo: trata-se de uma inversão funesta de valores, com efeitos colaterais imprevisíveis. E no momento em que se transforma o contraventor em funcionário público ou assalariado, com carteira assinada, para controle dos lucros, outros expedientes surgirão para evitar a perda da imensa massa financeira que enriquece uns poucos. E o tóxico aí está como opção. O mais triste não é tanto a existência dos danos, mas o reconhecimento da incapacidade de combatê-lo.
Muita ingenuidade revela quem acredita que o mal deixa de sê-lo por mero decreto ou supressão de um artigo na legislação. Fácil prever conseqüências para indivíduos e sociedade, se determinados crimes fossem riscados do Código Penal, pela resistência em superá-los. No mínimo seria um atestado de incapacidade que viria estimular transgressões em outros campos.
O jogo-vício, o jogo imoral, que se identifica com o que chamamos de jogatina, traz em si o sinete da trapaça e o rastro da destruição de lares, de reputações e outros desastres. Não me refiro ao jogo-distração em que predomina a característica lúdica, pois o objetivo não é a exploração da credibilidade pública ou o incentivo ao desejo malsão de ganhar sem trabalhar nem a nefasta troca de trabalho honesto pelo dinheiro oriundo da sorte. Estes aspectos é que são perniciosos. Nesta perspectiva, preocupo-me também com o emprego no social e ocasional mesmo de resultados financeiros de sorteios.
Tempos atrás, ouvi o seguinte comentário: no Rio, nos locais onde funciona o chamado jogo do bicho, nas suas imediações há segurança. E a mim interpelaram se era de meu conhecimento um único assalto a esses lugares e aos transportadores de elevadas somas ali recolhidas. Realmente, esse respeito é sintomático. A propósito, li num artigo publicado em 1982 a seguinte citação de um especialista em criminologia: ¿Todos os imprevistos econômicos, que mudam bruscamente a situação financeira das pessoas, encerram riscos e inadequada adaptação social. Isso não é somente verdadeiro com os transtornos que obrigam o indivíduo a reduzir seu padrão de vida e então renunciar a satisfazer certas necessidades, mas também aqueles atuantes no sentido oposto. A faculdade que têm os grandes prêmios de loteria de engendrar catástrofes morais ilustra claramente esta última verificação.¿ De uma relação de grandes ganhadores na loteria esportiva, chega-se à triste constatação, resumida nesta frase do acertador do teste 24, cujo nome omito: ¿A pior coisa que me aconteceu na vida foi ganhar na loteria.¿ Há um largo e doloroso elenco de pessoas bafejadas pela sorte, que ocuparam as atenções e, pelo que hoje padecem, comprovam o que se disse acima. Nem sempre o enriquecimento fácil e rápido gera a felicidade e o bem-estar.
Ao agravar-se o estado de saúde do Santo Padre João Paulo II, um jornal de circulação nacional, na última sexta-feira, com manchetes abrindo todas as colunas da primeira página: ¿Mundo faz vigília pelo Papa.¿ Creio firmemente que o Santo Padre em meio aos sofrimentos faz mais pela Igreja que em plena saúde. É necessário ver a Igreja com os olhos da fé. Nestes momentos difíceis devemos ter a certeza de que o Espírito Santo dirige a obra de Cristo.
Obrigado Santo Padre pelo seu exemplo de zelo pela integridade da doutrina e bem-estar da Humanidade.
D. EUGENIO SALES é cardeal-arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio.