Título: ANTONIO L. DA COSTA BURGOS
`O grande inimigo são os traficantes¿
Autor: Soraya Aggege
Fonte: O Globo, 03/04/2005, O País, p. 3
A recém-criada Brigada para a Garantia da Lei e da Ordem está sob o comando do general-de-brigada Antonio Luiz da Costa Burgos, há 34 anos no Exército. Ele diz que o interesse do Exército é democrático, mas espera receber críticas.
O senhor não teme que esta brigada seja criticada como uma força constrangedora de movimentos sociais?
ANTONIO LUIZ DA COSTA BURGOS: Os movimentos sociais organizados hoje adotam determinadas posturas que vão contra a comunidade de maneira geral. E muitas vezes você tem que obedecer determinações legais, judiciais, e vai ser este o nosso caso. O Estado brasileiro não pode perder o direito de ser presente. E não podemos deixar determinadas áreas. Mal comparando: temos áreas nos morros do Rio onde a polícia não entra e o Estado não está presente. O Estado não pode deixar que o tráfico se torne a autoridade. Nós não estamos sendo ilegais, estamos cumprindo nossa parte. A segurança pública é hoje um dos itens de que a população mais precisa.
O senhor está montando um perfil novo no Exército. Quais as suas bases teóricas e seus referenciais de segurança pública?
BURGOS: Estamos nos valendo das polícias civil e militar, mas também nos voltando para as literaturas. Particularmente da Turquia, Nigéria, Coréia, Alemanha e Israel, que vive em conflito permanente. E vamos fazer simpósios com pessoas ligadas a direitos humanos, ONGs e polícias, para estabelecer regras.
Quer dizer, tudo pode acontecer, o leque de ação é muito amplo e ainda não já regras.
BURGOS: Sim. Agora cabe ver até onde poderei ir e onde posso começar. Há um limite tênue. Embora a gente use agora arma não-letal, a literatura nos mostra que já morreu gente com bala de borracha, e gente que tinha marca-passo e morreu ao levar um choque de cassetete.
Temos uma democracia recente. E houve antes uma situação de repressão ao que hoje chamamos de movimentos sociais. O senhor não teme que isso seja revivido, pelo menos no plano das críticas?
BURGOS: Nós vamos sentir muito isso.
O passado pode incomodar?
BURGOS: Eu tenho certeza que, amanhã, na praça pública, alguém vai dizer: ¿Olha, os gorilas voltaram, os Urutus estão nas ruas!¿. Quem viveu há 20 anos sabe que isso era comum. Mas estamos hoje numa democracia plena. Além das mazelas sociais ¿ infelizmente no Brasil estamos vivendo muito isso ¿ o grande inimigo do Brasil são os traficantes internacionais, os contrabandistas. Não são mais (inimigos) ideológicos.
O senhor esperava isso logo do governo Lula, dito de esquerda? Ou qualquer governo faria isso?
BURGOS: Sendo o presidente Lula ou não, tanto faz. O caminho é esse. É o exercício pleno da cidadania. Não gostou? Reclame, passe e-mail para o seu parlamentar. Estamos na democracia. Agora, não queremos ficar na segurança pública. Queremos ser complementares. E nas emergências. Tão logo seja restabelecida a ordem, sairemos.