Título: JUSTIÇA MANDA RELIGAR ANGRA 1 DIA 20
Autor: Ramona Ordoñez
Fonte: O Globo, 06/04/2005, Economia, p. 21
Liminar que impedia volta da usina foi derrubada. Operação gera polêmica
A Justiça Federal determinou que a usina nuclear Angra 1 volte a funcionar no próximo dia 20. A juíza substituta da Vara Federal na Comarca de Angra dos Reis, Marianna Carvalho Bellotti, cassou a liminar concedida no dia 18 por sua antecessora, a juíza Érika Schmitz. Segundo a liminar, pedida pela prefeitura de Angra em ação civil pública, a usina somente poderia voltar a funcionar ¿em segurança¿, o que incluiria a troca dos dois geradores de vapor. Angra 1 foi desligada em 26 de fevereiro para troca de parte do combustível.
Após mais de 20 anos em operação, Angra 1 continua polêmica. A prefeitura de Angra, que historicamente sempre foi favorável às usinas e por 12 anos ficou sob gestão do PT, é contra a volta de Angra 1 agora.
¿ Não sou contra as usinas nucleares, mas Angra 1 só deveria funcionar com total segurança, após a troca desses geradores velhos ¿ declarou o prefeito Fernando Jordão, do PMDB.
Angra 1 foi construída pela empresa americana Westinghouse. Em 1985 foi constatado que os geradores de vapor tinham problemas de corrosão nos tubos. Cada gerador tem cerca de 4.500 tubos, pelos quais passa a água radioativa.
Luiz Manuel Messias, superintendente de Empreendimentos da Eletronuclear ¿ subsidiária da Eletrobrás que opera as usinas nucleares ¿ garantiu que não há riscos antes da troca dos geradores. A empresa já iniciou o processo de troca, que custará R$430 milhões e será concluído até março de 2008. Também são gastos US$11 milhões por ano na inspeção na tubulação. Até o momento foram tamponados (inutilizados) 1.369 tubos nos dois geradores, cerca de 15% do total, contra um índice de até 25% utilizado em outros países.
Pinguelli: vazamento seria detectado e local, isolado
Alguns especialistas, como o professor de engenharia nuclear da Coppe/UFRJ Aquilino Senra, observam que a operação de gerador de vapor com tubos tamponados não oferece um risco em si. No entanto, no caso de Angra 1 a troca deveria ter sido iniciada há anos, para estar sendo concluída agora.
O físico nuclear Luiz Pinguelli Rosa, um antigo crítico do programa nuclear brasileiro e ex-presidente da Eletrobrás, também não vê riscos na operação da usina antes da troca. Segundo ele, mesmo que ocorresse algum vazamento de partículas radioativas no gerador, por menores que fossem, isso seria detectado pelos sensores e o local, isolado.
Já o deputado federal Carlos Minc (PT-RJ) defende a paralisação de Angra 1 até a troca dos geradores e a solução de outras questões, como o local para o depósito dos resíduos radioativos e a melhoria do plano de evacuação da população de Angra em caso de acidentes.