Título: TARIFAS LEVAM INFLAÇÃO A 0,61%
Autor: Luciana Rodrigues
Fonte: O Globo, 09/04/2005, Economia, p. 27
IPCA sobe com reajuste nas passagens de ônibus e nos preços de água e esgoto
Reajustes nas tarifas de ônibus urbanos e de água e esgoto em diferentes capitais do país fizeram a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subir 0,61% em março, informou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O IPCA é usado nas metas de inflação do governo e, com o resultado de março, já acumula alta de 1,79% este ano. A taxa do mês passado ficou próxima ao resultado de fevereiro, quando o IPCA subiu 0,59%. Mas, se não fossem os aumentos nos preços de ônibus e de fornecimento de água, a inflação em março seria de menos da metade do apurado. Juntas, essas duas tarifas tiveram peso de 0,33 ponto percentual na inflação de 0,61%.
Também não é para menos: em São Paulo, cidade com maior peso na coleta do IBGE, as tarifas de ônibus subiram 17,65% no dia 5 de março. Em Porto Alegre, o reajuste, no último dia 13, foi de 12,9%. E no Rio os preços de ônibus sobem 12,5% hoje, para R$1,80 na tarifa básica.
Depois de registrarem alta de apenas 4,74% em todo o ano passado, os preços de ônibus urbanos nas 11 regiões onde o IPCA é apurado já subiram em média 4,52% só nos três primeiros meses de 2005.
¿ As tarifas de ônibus às vezes seguem um calendário político. Em anos eleitorais (em 2004, houve eleições municipais) há poucos reajustes e, nos anos seguintes, isso costuma ser compensado ¿ diz o economista Élson Teles, da Fides Asset Management.
Carmem Lúcia de Oliveira Ramos, que trabalha por conta própria cuidando de idosos, lamentava ontem o reajuste nas passagens de ônibus do Rio:
¿ O reajuste foi acima da inflação e a gente não recebe para poder cobrir esse aumento. E as outras contas estão subindo também.
As tarifas de água foram reajustadas em seis regiões e, com isso, tiveram alta de 4,42% no IPCA.
Apesar de a inflação de março ter ficado dentro das expectativas do mercado e apenas ligeiramente acima da registrado em fevereiro, os economistas acreditam que será muito difícil cumprir a meta central de 5,1% para este ano, com margem de tolerância de até 7%.
¿ Há pressões de tarifas e pelo lado da oferta (de produtos). Os alimentos devem subir em abril, repercutindo as altas já registradas no atacado ¿ diz Teles, da Fides.
Ontem, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) informou que o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), que apura também a inflação no atacado, subiu 0,67% na primeira prévia de abril. Os preços agrícolas no atacado tiveram alta de 2,35% e, no ano, já acumulam variação de 5,83%, devido à estiagem que provocou uma quebra de safra no Brasil.
Mas, por enquanto, essa pressão ainda não chegou ao varejo. Os alimentos, que no IPCA de fevereiro haviam subido 0,49%, agora tiveram alta de apenas 0,26%. Segundo Eulina Nunes, gerente do Sistema de Índice de Preços do IBGE, alguns itens já mostram o impacto favorável do dólar mais baixo dos últimos meses. É o caso de farinha de trigo (-1,50%), pão francês (-1,55%), macarrão (-1,18%) e óleo de soja (-1,01%).
¿ A estiagem ainda não apareceu nos preços de março ¿ diz Eulina.
E, se as altas dos preços agrícolas no atacado podem chegar ao varejo em abril, a tendência, para o futuro, é de pressões menores. O economista Marco Antônio Franklin, da Plenus Gestão de Recursos, afirma que os agrícolas já estão recuando. Pela coleta diária feita pela Plenus no mercado, os preços desses itens no atacado estavam ontem 2,10% abaixo de um mês atrás. Franklin não descarta que a FGV constate deflação (ou seja, queda de preços) no índice de agrícolas no atacado nas próximas semanas.
Com a concentração de reajuste de passagens de ônibus em março, a inflação para as famílias de baixa renda subiu mais do que o IPCA. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) ¿ calculado pelo IBGE para as famílias com renda de um a oito salários-mínimos e com peso maior de tarifa de ônibus ¿ teve alta de 0,73%, contra o 0,61% do IPCA.