Título: NA ÁFRICA, IGREJA DIFICULTA O COMBATE À AIDS
Autor: Eliane Oliveira e Evandro Éboli
Fonte: O Globo, 10/04/2005, O Mundo, p. 34

Especialistas defendem mudança de posição do Vaticano, que proíbe métodos contraceptivos e preventivos

BRASÍLIA. O próximo Papa certamente viverá um dilema, quando voltar os olhos para a África: como agir frente a um continente onde os casos de Aids se multiplicam de forma geométrica no contexto de seu antecessor, que condenava métodos contraceptivos e preventivos?

¿ Enquanto a Igreja Católica continua condenando o uso dos preservativos e pregando a abstinência, estamos assistindo à destruição de diversos países africanos em função de uma recomendação do Vaticano. A Aids está comprometendo o desenvolvimento do continente ¿ alerta Mário Ângelo da Silva, professor de Serviço Social da Universidade de Brasília.

Os dados sobre a epidemia na África são estarrecedores. Em alguns países, mais de 50% da população estão infectados, como Botsuana e Zimbábue. Em Moçambique, 14% têm o HIV, sendo 64% jovens e crianças.

¿ Estamos falando de 700 infecções por dia. O Papa que for eleito deverá olhar além da questão moral, ética e religiosa. Essa política da abstinência sexual não segura a epidemia e sua participação em campanhas de prevenção será fundamental num continente em que parte considerável da população é cristã ¿ destaca o professor.

O padre italiano Ermanno Allegri, diretor da Agência de Informação Frei Tito para a América Latina (Adital), defende uma mudança radical do ponto de vista da Igreja sobre países de África, América Latina e Ásia. Para ele, o Vaticano deve olhar mais a realidade histórica dessas regiões e ser mais flexível em relação à forma como os povos interpretam a religião, sem conceitos padronizados.

¿ Existe uma visão européia hoje equivocada de que a América Latina, a África e a Ásia ainda são colônias, algo secundário. É preciso levar em conta que há uma nova interpretação da teologia ¿ diz Allegri.

Convicto de que o grande problema do século XXI continua sendo a miséria mundial, o vice-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Antônio Celso Queiroz, acredita que a situação na África, de forma geral, deve ser prioritária para a Igreja.

¿ Enquanto as pessoas continuarem a morrer de fome, a Igreja estará presente. Vamos continuar chamando a atenção para a África, onde o povo apodrece de doenças, desnutrição, guerra e violência ¿ afirma Queiroz.