Título: A fome e a birra
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 13/04/2005, Panorama Político, p. 2

A rejeição, por uma comissão do Senado, do indicado pelo presidente Lula para presidir a ANP é um episódio ímpar em sua mistura de baixos instintos políticos: aliados interessados em chantagear o governo se juntaram a oposicionistas empenhados em derrotá-lo para rejeitar o nome de José Fantine, um respeitado técnico da área petrolífera.

O episódio ocorre em meio a novas dificuldades do governo para fazer andar a pauta de votações na Câmara, enfrentando a obstrução dos adversários e o corpo mole dos aliados. Ontem chegavam a 529 as matérias acumuladas. Essa situação mostra que também no Senado o governo não resolveu seu problema crucial, a construção de uma maioria sólida, que chegou a vislumbrar com a eleição de Renan Calheiros para a presidência.

Com a saída do embaixador Sebastião do Rêgo Barros, em janeiro, temeu-se que o governo indicasse um político para o cargo. A ministra Dilma Rousseff propôs Fantine, que nas últimas semanas fez a tradicional visita aos senadores que integram a Comissão de Infra-estrutura. De nenhum deles ouviu restrições ou sinais de resistência a seu nome. Teve 12 votos contrários (e 11 a favor) dados por uma coalizão de contrários que se articulou para golpear o Planalto. O PMDB tomou a iniciativa alegando que indicou dois nomes e o governo preferiu o técnico indicado pela ministra. Um dos peemedebistas, Waldir Raupp, juntou o fato de não ter emplacado um afilhado na diretoria-geral da Eletronorte. Num cargo que já era ocupado por um petista e foi trocado por outro, Ademar Palocci, irmão do ministro da Fazenda, técnico da Eletrobrás. ¿Nós apenas aproveitamos a oportunidade para derrotar o governo¿, disse o líder tucano Arthur Virgílio, desmentindo que o PSDB tenha se aborrecido com a demissão de um aliado que ainda ficou dois anos no cargo, no atual governo. Outros invocaram ainda a troca da diretoria da Cepisa, empresa de eletricidade do Piauí. A anterior, já composta pelo atual governo, com petistas e peemedebistas, levou a empresa, já problemática, a uma situação crítica. Foi preciso levantar-lhe o padrão técnico.

É certo que a avareza dos petistas ao compartilhar cargos com os aliados contribui para a instabilidade na base. O compartilhamento é natural em governos de coalizão, em qualquer lugar do mundo. Mas tal participação passa a merecer o nome de fisiologismo quando coisas desse gênero acontecem. Quando a busca de espaços não se detém diante das exigências da boa gestão e da qualificação dos indicados. É o caso da presidência da agência reguladora das concessões para a exploração do petróleo.

O PMDB liderou esse movimento revanchista, para não dizer chantagista, numa hora em que o presidente Lula investe alto na consolidação de uma aliança com o partido. O governo não tem muito para onde correr para garantir sua maioria, e o PT desajuda. Não tem como escapar do PMDB, que pensa em ter como aliado preferencial na sucessão de 2006. Mas ainda pode estabelecer um padrão de conduta com seu maior parceiro, separando os infiéis, ao invés de tentar juntá-los.

O irônico é que, para atender ao PMDB, levou para o Ministério um senador enredado em denúncias, Romero Jucá. E que lá, no Senado, mostrava serviço monitorando votações como esta e impedindo o pior.