Título: Queimadas e desmatamento, vilões brasileiros
Autor: Herton Escobar
Fonte: O Globo, 13/02/2005, Vida&, p. A14
As emissões de gases do efeito estufa no País não acompanham a tendência mundial, de queima de combustíveis fósseis
O Brasil apresenta um quadro de emissões de gases do efeito estufa totalmente diferente dos países ricos. Enquanto nas nações mais industrializadas as emissões provêm principalmente da queima de combustíveis fósseis nos motores de carros e indústrias, no Brasil o maior problema são as queimadas e o desmatamento - caracterizado oficialmente como "mudanças no uso do solo e florestas". Os números oficiais mais recentes, incluídos no Inventário Nacional de Emissões de Gases do Efeito Estufa, são de 1994. O relatório foi apresentado no fim do ano passado, como parte dos compromissos brasileiros na Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. As emissões são relatadas individualmente para cada gás: 1,03 bilhão de toneladas de CO2; 13,2 milhões de toneladas de metano (CH4) e 550 mil toneladas de óxido nitroso (N2O) - equivalentes a 3% das emissões globais de gases-estufa.
No caso do CO2, o gás mais relevante nesse processo, 75% das emissões nacionais têm origem nas mudanças de uso do solo e 25%, na queima de combustíveis. A única maneira de o País reduzir significativamente sua contribuição para o efeito estufa - caso seja obrigado a isso em algum momento -, portanto, seria pela redução do desmatamento, dizem especialistas.
As plantas são armazenadoras naturais de carbono, pois utilizam o CO2 na fotossíntese para crescer e acabam estocando grandes quantidades da molécula em seus tecidos. Quando a vegetação é cortada ou queimada, esse carbono eventualmente retorna para a atmosfera, junto com outros gases guardados no solo que ela recobria.
No centro do problema - e, eventualmente, da solução - está a Amazônia, com seus 4 milhões de quilômetros quadrados de floresta, dos quais 24 mil foram desmatados só no ano passado. "A Amazônia pode ser encarada como um grande estoque de carbono estável que, se cortado e queimado, contribuirá significativamente para o efeito estufa", diz o pesquisador Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). "Para se ter um idéia, o estoque retido na floresta é equivalente a dez anos de emissões globais de gases do efeito estufa."
No setor de energia, o Brasil é beneficiado pela sua matriz energética limpa, dependente principalmente de hidrelétricas, com emissões praticamente nulas.
PECUÁRIA
Com relação ao metano, 68% das emissões em 1994 foram provenientes da chamada fermentação entérica de gado bovino. Todo boi ou vaca emite CH4 naturalmente pela respiração, como um subproduto da degradação de fibras vegetais no estômago. Somadas, as 158 milhões de cabeças de gado existentes no País em 1994 emitiram 9,3 milhões de toneladas de metano. Hoje, são 195 milhões de cabeças.