Título: PALOCCI: O IMPORTANTE É CRESCER A LONGO PRAZO
Autor: José Meirelles Passos e Helena Celestino
Fonte: O Globo, 16/04/2005, Economia, p. 27

Ministro da Fazenda afirma que Brasil fez os ajustes necessários. Singh, do FMI, diz que reformas mostrarão resultado

WASHINGTON e NOVA YORK. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, disse ontem que os brasileiros não devem se preocupar tanto em prever quanto a economia do país vai crescer este ano. O mais importante, segundo ele, é continuar trabalhando ¿para que o Brasil continue a crescer por muitos anos seguidos¿. Embora tenha evitado mencionar uma cifra, ele disse estar um pouco mais otimista do que o Fundo Monetário Internacional (FMI), que previu crescimento de 3,7% para o Brasil em 2005, em informe divulgado esta semana. A projeção ficou significativamente abaixo da expectativa do Fundo para 2004, de expansão de 5,2%, informada no ano passado.

Segundo Palocci, a sustentabilidade da economia ¿ por meio da disciplina macroeconômica e das reformas ¿ é o fator mais importante para atrair os recursos necessários para o país crescer.

¿ A maior preocupação do investidor, do empresário que está pensando quanto vai investir, é se existe a certeza de crescimento ao longo de cinco a dez anos seguidos, sem traumas e interrupções. É isso o que faz com que o empresário faça um investimento duradouro ¿ disse o ministro, que está em Washington para a reunião semestral conjunta FMI/Banco Mundial.

Palocci afirmou que não tem dúvidas de que, daqui por diante, haverá um ritmo forte e sustentável de progresso econômico. Motivos: o crescimento da demanda interna, o excepcional desempenho das exportações, e a gradual redução da dívida pública:

¿ Tenho insistido em que poucos países do mundo fizeram um ajuste externo na dimensão que o Brasil fez nos últimos anos.

Palocci: `O organismo da economia está saudável¿

O diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, Anoop Singh, que monitora a economia brasileira, concordou com Palocci. Segundo ele, é muito importante notar que há uma grande conexão entre reformas e crescimento, e no Brasil houve muitas reformas nos últimos anos.

¿ Leva um certo tempo para que os resultados apareçam. Estamos confiantes em relação ao Brasil pelo fato de que ainda estamos por ver os efeitos totais dessas reformas no crescimento. Acreditamos que há ímpeto suficiente para que o Brasil continue a crescer nos próximos anos acima das tendências atuais ¿ disse Singh.

Mais uma vez, Palocci usou uma metáfora médica para retratar a situação do Brasil, garantindo que o país está preparado para suportar eventuais crises externas:

¿ O organismo da economia brasileira está saudável, em condições de enfrentar chuvas e trovoadas sem adquirir doenças mais fortes, como pneumonias.

O ministro disse ainda que o fundamental, agora, é que o Brasil ¿vai abandonar a história econômica de crescer dois anos e ter crises, em vôos curtos, que têm custado tanto no nível de crescimento e de empregos¿. E completou:

¿ Não temos razão para não crescer de forma sustentada. Se olharmos o resultado do nosso agronegócio e indústria, vemos a capacidade de competitividade que a indústria e o trabalhador brasileiro têm demonstrado. Não há porque um país com esse nível de riqueza de recursos humanos e capital enfrentar dificuldades quase que de dois em dois anos. Temos de deixar essa história para trás: os indicadores demonstram que isso é possível.

Discurso semelhante foi adotado pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, em reunião com investidores na Bolsa de Nova York:

¿ Estamos tranqüilos porque o Brasil já fez o dever de casa.

O objetivo de Meirelles era acalmar o mercado, que nos últimos dias esteve agitado devido à perspectiva de desaceleração do crescimento global prevista no mesmo informe divulgado esta semana pelo FMI.

¿ O mercado de títulos de crédito está sentindo mais e, por isso, todos passaram a olhar para os emergentes. Mas os papéis dos países emergentes estão tendo desempenho melhor do que se esperava e, entre eles, o Brasil está melhor ainda ¿ disse Meirelles, que ontem viajou para Washington, para a reunião FMI/Banco Mundial.

Na capital americana, Palocci também se encontrou com o secretário do Tesouro Americano, John Snow, que se reuniu com vários ministros de Finanças como parte das preparações para a reunião do G-7 (grupo dos sete países mais industrializados do mundo). O ministro brasileiro apresentou vários indicadores brasileiros a Snow.