Título: Tráfico e escravidão
Autor: Francisco Leali
Fonte: O Globo, 15/04/2005, O País, p. 3

COM APENAS 900 METROS DE COMPRIMENTO E 300 METROS DE LARGURA, A ILHA DE GORÉE, VISITADA ONTEM PELO PRESIDENTE LULA, FOI O MAIOR ENTREPOSTO DE ESCRAVOS DA COSTA OCIDENTAL AFRICANA DURANTE TRÊS SÉCULOS DE TRÁFICO NEGREIRO. EM 1978, POR SUA TRÁGICA HISTÓRIA, GORÉE FOI TRANSFORMADA EM PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE PELA UNESCO. A ILHA, PRESERVADA PELOS SENEGALESES, RECEBE MUITOS TURISTAS E AUTORIDADES, QUE SE EMOCIONAM EM VISITA À CASA DOS ESCRAVOS. NELSON MANDELA, GEORGE W. BUSH E O PAPA JOÃO PAULO II JÁ ESTIVERAM EM GORÉE. EM NOME DA HUMANIDADE, O PAPA, EM 1992, PEDIU ¿PERDÃO DO CÉU¿ PELA ESCRAVIDÃO, AJOELHADO NO LOCAL QUE ERA O PONTO DE PARTIDA DOS NEGROS CAPTURADOS NO OESTE DA ÁFRICA PARA AS AMÉRICAS E A EUROPA. Grande parte desses negros veio para o Brasil. Apesar das divergências dos historiadores, estima-se que o país tenha recebido cerca de quatro milhões de escravos de toda a África. Um dos registros mais antigos da chegada dos escravos é de 1533, quando o colonizador Pero de Góis pediu ao rei de Portugal ¿17 peças de escravos¿. Naquela época, entretanto, a exploração do pau-brasil era feita basicamente com trabalho de índios.

Foi com o ciclo da cana-de-açúcar que a mão-de-obra escrava se consolidou no Brasil. Em 1559, o tráfico foi legalizado por um decreto de Dom Sebastião. Os negros, tirados de suas terras, eram trazidos acorrentados em navios. Muitos, estima-se que 40% do total, morriam no caminho.

Chegando ao Brasil, os escravos eram submetidos a precárias condições de vida. Os senhores de engenho delegavam a feitores e capitães-do-mato a fiscalização dos negros, intimidados por açoitamentos e outros castigos. Como a condição de escravo era determinada pela cor da pele, era muito difícil a fuga e a integração social dos fugitivos.

Os negros africanos legaram ao Brasil importantes influências nas artes, na religião, no folclore e na culinária. Um dos exemplos é a feijoada, prato que aproveitava as partes menos nobres do porco, dispensadas pelos senhores de engenho. Além de terem sido a base do trabalho durante o ciclo da cana, os escravos também formaram a mão-de-obra no ciclo do ouro.

A partir de 1815, a Inglaterra resolveu se empenhar para acabar com o tráfico negreiro, e, com a independência do Brasil, em 1822, o movimento ganhou força no país. Em 1850, a lei Euzébio de Queiroz repreendeu oficialmente o tráfico. Também em meados do século, a abolição da escravidão nos Estados Unidos e a Guerra do Paraguai, em que os escravos combatentes recebiam a liberdade como prêmio, foram impulsos importantes.

Em 28 de setembro de 1871 foi promulgada a Lei do Ventre Livre, que tornava livres os filhos de escravos nascidos a partir daquela data. Em 1885, foi assinada a Lei do Sexagenário, que concedia a liberdade aos escravos com mais de 60 anos, desde que seus proprietários fossem indenizados.

A história da escravidão no país teve fim no dia 13 de maio de 1888, com a Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel. O artigo 1º da Lei diz que ¿é declarada extinta a escravidão no Brasil¿, e o artigo 2º, que ¿revogam-se as disposições em contrário¿. Naquela época, existiam em torno de 700 mil escravos no país. O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão.