Título: PF ABATE NO SUL AVIÃO QUE TRANSPORTARA DROGAS
Autor: Chico Oliveira
Fonte: O Globo, 19/04/2005, O País, p. 10

Carga de maconha e cocaína fora descarregada no Uruguai, mas na volta piloto chegou a pousar no Brasil

PORTO ALEGRE. A Polícia Federal interceptou a tiros em um aeroporto particular de Santana do Livramento, a 500 quilômetros de Porto Alegre, um avião que momentos antes descarregara cerca de 500 quilos de maconha e outros 30 quilos de cocaína em Tacuarembó, no interior do Uruguai. Foi morto o piloto e proprietário do avião, Alcides Correa da Costa, de 66 anos, e ficou ferido o co-piloto, Lauter Veroni Rojenski, de 55. O incidente ocorreu domingo à tarde.

O avião, um bimotor a hélice Piper Azteca, prefixo PT-KNC, registrado em Uberaba, no Triângulo Mineiro, saiu às 10h30m de Ponta Porã, na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, e chegou ao Uruguai sem entrar em território brasileiro para escapar da Lei do Abate, que permite a derrubada de aviões cujos pilotos não se identificam ou não cumprem ordens de pouso.

¿ O Sindacta II, da Aeronáutica, em Curitiba, confirmou que o avião não tinha plano de vôo e foi acompanhado, mas não teria entrado em território brasileiro ¿ disse o delegado regional de Combate ao Crime Organizado, Ildo Gasparetto.

Segundo a PF, avião pode ter descido em Foz do Iguaçu

Outras informações da PF indicam que o avião pode ter descido em Foz do Iguaçu ou em um lugar perto da fronteira brasileira, para abastecer na viagem até Tacuarembó.

Após lançar a carga de drogas em Tacuarembó, o piloto seguiu para uma pista particular de grama situada numa fazenda a dez quilômetros do centro de Santana do Livramento. A pista é usada para o abastecimento de aviões agrícolas e está distante apenas mil metros dos marcos de fronteira. Não há informações de que o dono das terras esteja envolvido.

Segundo o assessor de Imprensa da Polícia Federal em Porto Alegre, Roberto Lopes Janisch, e o comando regional da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, que deu apoio aéreo e terrestre à PF na operação, o avião foi alvejado no momento em que arremetia para escapar dos policiais que o esperavam em terra. Já havia deixado o solo, mesmo sem ter abastecido.

¿ Quando já havia descido no aeroporto e percebeu que estava sendo aguardado pelos policiais, o piloto taxiou em direção à cabeceira. Neste momento um avião da Brigada Militar descia em sentido contrário, também com o objetivo de impedir a subida do Azteca. Diante do risco de colisão, os policiais atiraram no avião ¿ contou Janisch.

O avião já estava no ar quando foi atingido. O piloto ainda tentou voltar à pista, mas perdeu o controle e caiu. Até parar, o avião perdeu um tanque, uma hélice e danificou uma das asas, mas não chegou a haver explosão.

O piloto e o co-piloto têm antecedentes por tráfico, mas a PF não esclareceu se faziam parte da quadrilha do traficante foragido Erineu Domingos Soligo, que tem fazendas na fronteira de Mato Grosso com o Paraguai e seria o responsável pela viagem.

Co-piloto foi arremessado do avião e machucou costela

O co-piloto foi arremessado do avião e teve ferimentos em uma costela e no pé direito. Foi medicado no Pronto Socorro Municipal de Santana do Livramento e levado para a Polícia Federal. Ontem, teve a prisão preventiva decretada e foi levado para o presídio local.

Gasparetto disse que peritos enviados de Porto Alegre vão revelar se o piloto morreu em decorrência dos tiros ou da queda do avião. Segundo informações da PF, ele foi atingido por dois tiros.

Participaram da operação 15 policiais federais, além de policiais militares. A Polícia Federal ainda não revela possíveis conexões da quadrilha responsável pelo descarregamento da maconha e cocaína em Tacuarembó, no Uruguai. Sabe-se, no entanto, que essa droga deveria ser distribuída no lado brasileiro e que a escolha do Uruguai para o lançamento da carga se deve ao risco que passou a existir depois da entrada em vigor a Lei do Abate.