Título: FÔLEGO INTERNO
Autor: Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 19/04/2005, Economia, p. 19

Dia das Mães no ritmo do crediário

Fábricas e lojas esperam vendas até 20% maiores graças à expansão do crédito

Mesmo com o aumento dos juros nos últimos meses, indústria e varejo apostam na farta oferta de crédito para alavancar seu faturamento no Dia das Mães, no próximo dia 8 de maio. As previsões para aquela que é considerada a segunda melhor data do ano para o comércio, só perdendo do Natal, é de um aumento entre 15% e 20% ¿ acima da média de 10% registrada em 2004.

No Rio, pesquisa feita pelo Instituto Fecomércio-RJ mostra que 75% dos empresários esperam ampliar suas vendas este ano. Na média, a estimativa é de um faturamento 15,67% maior. Em todo o Brasil, as encomendas começaram a ser fechadas no fim de março e devem atingir seu pico nas próximas duas semanas.

¿ O Dia das Mães é uma data-chave para o setor, e a oferta de crédito será fundamental para as nossas metas ¿ diz o gerente de Marketing da divisão de eletroportáteis da Electrolux, Paulo Petroy.

Ele estima crescimento de 20% nos negócios, num segmento em que quase 70% das vendas são fechadas com crediário. Para a linha branca, como fogões e geladeiras, a Electrolux espera alta de 10%. A Semp-Toshiba, com cerca de seis mil pontos de venda no país, prevê resultado até 15% maior do que o do Dia das Mães de 2004, com demanda até para itens de maior valor, como aparelhos de TV de tela plana e outros equipamentos que chegam a custar mais de R$2 mil.

Bancos: empréstimo em folha terá R$ 25 bi

A expansão do crédito tem seu carro-chefe nas operações com desconto em folha de pagamento. Segundo dados do Banco Central (BC), esse tipo de empréstimo atingiu R$13,6 bilhões em fevereiro, com crescimento de 98,7% nos últimos 12 meses. Amanhã, o BC decide a nova taxa básica de juros. A maioria dos analistas prevê que ela será mantida no elevado nível atual (19,25% ao ano), para conter a inflação.

Com taxas próximas de 40% ao ano, o empréstimo consignado ainda está longe de ser alternativa econômica para o consumidor, mas seu custo é significativamente inferior ao juro médio do crédito pessoal ¿ que chega a 75% ao ano. Para o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Márcio Cypriano, o crédito consignado deve fechar 2005 com uma carteira de R$25 bilhões.

¿ À medida que o mercado de trabalho se aquece, essa demanda se reflete na procura por crédito e consumo. E a elevação dos juros não tem inibido isso ¿ afirmou Cypriano, que também é presidente do Bradesco.

As projeções para o Dias das Mães confirmam os bons resultados das empresas no primeiro trimestre. Na Electrolux, as vendas de eletroportáteis subiram 9% em relação a 2004, dois pontos percentuais acima da meta. A Semp-Toshiba também atingiu sua meta, de 10%.

Salário-mínimo vai injetar R$ 21,8 bi

O quadro não é diferente no varejo. A Lojas Cem, especializada em eletroeletrônicos, faturou 15% mais de janeiro a março sobre 2004, sendo que 90% das vendas dependeram do crédito.

¿ A recuperação do salário ainda é modesta. É o crédito que completa isso ¿ afirmou Valdemir Colleoni, superintendente da rede.

O Instituto Fecomércio-RJ diz que o otimismo é maior nos setores mais dependentes de crédito. O segmento de eletrodomésticos, por exemplo, espera alta de 17,79% nas vendas.

¿ O crédito ao consumidor está num momento favorável e a inadimplência, em queda ¿ diz o presidente da Fecomércio-RJ, Orlando Diniz.

O varejo poderá contar, nos próximos meses, com uma injeção de recursos na economia graças ao reajuste do salário-mínimo: em maio subirá de R$260 para R$300. Segundo o economista Marcio Pochmann, da Unicamp, o novo mínimo injetará R$21,8 bilhões extras na economia nos próximos 12 meses, ou 1,3% do PIB (soma das riquezas produzidas pelo país). Ele fez a estimativa considerando trabalhadores ocupados e autônomos que ganham um salário, ou cuja renda está indexada ao mínimo, além dos beneficiários da Previdência. A mudança terá impacto na renda de 43,8 milhões de brasileiros, tendo efeito multiplicador ao longo do ano, num momento em que a economia está reduzindo seu crescimento.

¿ Isso manterá a atividade do mercado interno ¿ diz o economista Fábio Romão, da LCA Consultores.

COLABOROU Luciana Rodrigues