Título: Expectativa de nova captação faz dólar ter queda recorde
Autor: Patricia Eloy e Helena Celestino
Fonte: O Globo, 20/04/2005, Economia, p. 20
RIO e NOVA YORK. Fortes rumores de uma nova captação do governo brasileiro junto a investidores internacionais levaram ontem o dólar à maior queda em um mês. A moeda americana encerrou os negócios cotada a R$ 2,575 para venda, na mínima do dia, com desvalorização de 1,27%. Foi o maior recuo desde o dia 17 de março, quando o dólar fechou em queda de 1,52%.
Num seminário na agência de classificação de risco Fitch Ratings, em Nova York, o secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, disse que o Brasil já captou a maior parte dos US$ 6 bilhões previstos no cronograma deste ano e, portanto, está numa posição confortável diante das turbulências dos mercados internacionais.
Para Levy, o mercado internacional está passando por uma fase de ajuste e, por isso, é natural que haja turbulência ¿ há duas semanas, as bolsas americanas e européias vêm registrando fortes quedas, impulsionadas por resultados ruins divulgados pelas empresas americanas, o que levanta temores de que a fase de crescimento da economia mundial esteja chegando ao fim.
¿ Até ficar claro como os mercados vão reagir, é natural que haja turbulência. Mas o Brasil tem um certo conforto até o fim do ano ¿ disse.
Além dos rumores de uma nova emissão, no Brasil, a queda do núcleo de inflação do Índice de Preços ao Produtor (PPI, na sigla em inglês) dos EUA ¿ que exclui os itens mais voláteis, como alimentos ¿ também animou os investidores, apesar da forte alta do índice em março, puxado pelos preços dos combustíveis. No mês passado, os preços subiram 0,70%, ante 0,4% de fevereiro. A previsão era de que o indicador ficasse em 0,60% no mês.
Já o núcleo da inflação ficou em 0,1%, abaixo das previsões de 0,2% no mês. Para os analistas, o núcleo mais baixo afasta a possibilidade de aceleração no ritmo de alta dos juros nos Estados Unidos, para conter uma forte alta de preços. Taxas mais altas tendem a aumentar a rentabilidade dos títulos do Tesouro dos EUA, considerados pouco arriscados. Com isso, os investidores poderiam optar por vender ativos de maior risco, como papéis de países emergentes (caso do Brasil), para aplicar nos EUA.
Ontem, o núcleo mais baixo da inflação americana e a expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) interrompa hoje o ciclo de sete altas seguidas nos juros levaram a uma forte alta da Bolsa e dos títulos da dívida e a uma queda do risco. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) subiu 2,77% e o risco-Brasil recuou 2,97%, para 457 pontos. O Global 40, título mais negociado da dívida externa brasileira, subiu 1,43%, cotado a 113,5% do valor de face.
Para o economista Alexandre Póvoa, diretor da Modal Asset, apesar da recente deterioração do cenário externo e da elevada demanda por crédito no país, as altas de juros terminaram em março. Ele ressalta que a estabilidade nas projeções de inflação para os próximos 12 meses e o risco de desaceleração da atividade econômica ¿ diante dos juros reais de cerca de 13% ¿ devem fazer o BC colocar o pé no freio hoje.
Para Rashique Rahman, estrategista-chefe de Mercados Emergentes do HSBC Securities em Nova York, a queda da produção industrial em fevereiro ¿ dados mais recentes disponíveis ¿ reforçam a tese de que o ciclo de altas de juros pode ter chegado ao fim:
¿ As perspectivas de médio prazo para a inflação mostram que as taxas caminham para a convergência com as metas. Além disso, a atividade econômica está sendo afetada por juros tão altos, o que reforça nossa expectativa de manutenção das taxas.
Ontem, os investidores ignoraram a alta do petróleo no mercado internacional. Mas problemas em duas refinarias americanas provocaram alta de 5% nos preços da futuros da gasolina. Em Londres, o barril do tipo Brent subiu 4,25%, para US$ 52,94. Em Nova York, o barril do tipo cru leve americano avançou 3,81%, para US$ 52,29. *Correspondente