Título: O VERDADEIRO FEMINISMO
Autor: D. Eugenio Sales
Fonte: O Globo, 23/04/2005, Opinião, p. 7
Amorte de João Paulo II, o Grande, e o início do pontificado de seu sucessor, nos oferecem excelente oportunidade para avaliar este pontificado em prol da Igreja e dos homens de boa vontade.
João Paulo II foi um Papa de grandes contrastes. Resistiu à perseguição nazista e ao terror comunista. Trabalhara em uma fábrica química; entrou em um seminário clandestino. Entretanto, esta dureza vivida contrasta com a sua luminosa bondade para com todos, especialmente com os pequenos e fracos. Contudo, não lhe faltava vigor quando devia cumprir seu dever.
Duas coisas marcam singularmente seu pontificado: uma abertura a tudo o que é humano: ao belo, à ciência, à cultura. Conheceu as injustiças, da opulência de um lado e, de outro, a mais degradante e humilhante pobreza. Suas encíclicas sociais, Laborem Exercens, Sollicitudo Rei Socialis, Centesimus Annus, condenam o liberalismo capitalista ¿cujo conteúdo chega ao desprezo de Deus e do próximo e conduz à afirmação ilimitada do interesse próprio, sem obedecer a qualquer dever de justiça¿ (CA 17). De outro lado, ele afirma que o marxismo é perverso por princípio, é anti-humano. Mas seria insensatez imaginar que, com a implosão do comunismo, o capitalismo constituísse a única alternativa possível (CA 42).
Os Sínodos dos Bispos de todos os continentes e as respectivas Cartas Apostólicas confirmam e sua sensibilidade para com o mundo e para com a extrema gravidade da História de hoje. Mas, em meio ao mundo com seus cruciantes problemas da Humanidade, o Papa manifesta qual é a sua verdadeira inspiração. Dizem os que mais viviam perto dele que cada dia ele passava várias horas em silenciosa adoração; eu mesmo o constatei algumas vezes. Ele dedicou três encíclicas ao grande tema de sua vida: a Deus Pai, Dives in Misericórdia; ao Filho: Redemptor Hominis e ao Espírito Santo: Dominum et Vivificantem. Com todo o seu ser amava e adorava Deus, e a Ele servia com todas as conseqüências. A luta pela liberdade e a inculturação, ele as colocava sob o valor absoluto de Deus. A cultura com seus inestimáveis valores não é medida para a interpretação do Evangelho, mas o Evangelho é a medida para a cultura (cf. Puebla, 389s).
Três outros eminentes temas são a Família, a Mulher e a Juventude. A família, ele a defende com grande perspicácia contra as incalculáveis ameaças do totalitarismo das ideologias que querem equiparar à família qualquer forma de convivência, sem compromisso nenhum nem entre os dois, nem com os eventuais filhos. Familiaris Consortio e a ¿Carta do Papa às Famílias¿, além das inumeráveis homilias, desenvolvem uma admirável antropologia e teologia do corpo, do amor e do sexo. A mulher deve reaver a sua inteira dignidade de imagem de Deus, símbolo da misericórdia. Tal verdadeiro feminismo será uma bênção para toda a Humanidade. A juventude: a atração deste Papa ancião sobre os jovens é algo inimaginável.
Toda cultura, também a filosofia e a teologia devem servir à plena dignidade humana, tão profundamente descrita em Veritatis Splendor (6 de agosto de 1993) e em Fides et Ratio (14 de setembro de 1998). Cristo é o centro absoluto; Maria é expressão da ternura divina, acesso seguro ao Coração de Jesus.
Algo de extraordinário marcou o final de sua vida, sua entrada na vida eterna com Deus. Nos dias de sua agonia, um jornalista observou: ¿A Humanidade está em vigília com o Papa e pelo Papa.¿ Não se tem memória de tão grandiosa manifestação de apreço. Um mundo dividido, vítima de terrorismo e tantos males, olhou esperançoso e com afeto para este homem que em nome de Deus pregava paz e concórdia. Em torno de seus restos mortais, milhões de pessoas desde os poderosos da Terra ¿- 172 reis, rainhas, presidentes de países, primeiros-ministros, representantes dos povos ¿ participaram das últimas homenagens a quem serviu à causa mais sublime da Humanidade. Pastor da Igreja Católica, ao pregar os valores espirituais em uma época marcada por descrença e inumanidade, serviu ao fortalecimento de todas as crenças religiosas. Presidentes de países mais poderosos estavam de joelhos diante de um corpo inerte. Jovens, chorando na Praça de São Pedro, testemunhavam a uma outra juventude sem ideais que o Cristo Jesus e seus ensinamentos são o único vigor que não morre, certeza que não engana. Ricas lições permanecerão para este mundo tão contraditório.
João Paulo II morreu, mas vive em Jesus Cristo e nos ensinamentos que legou aos fiéis. No céu, junto ao trono de Jesus, a quem serviu na Terra, ajuda-nos, com seus ensinamentos, a viver conforme a doutrina do Senhor. Bento XVI, felizmente eleito, será uma garantia da continuidade da extraordinária missão pastoral do Papa João Paulo II.
D. EUGENIO SALES é cardeal-arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro.