Título: CRISE NO EQUADOR: Uma onda de instabilidade que já dura 10 anos
Autor: Janaína Figueiredo
Fonte: O Globo, 24/04/2005, O Mundo, p. 39

Protestos como os que levaram à queda de Gutiérrez são novidade num país marcado por governos populistas

QUITO. Nada menos que sete presidentes passaram pelo Palácio de Carondelet, sede do Poder Executivo do Equador, nos últimos dez anos. Após um longo período de relativa tranqüilidade política, entre 1979 e 1997, o país entrou numa onda de instabilidade que ainda não teve fim. Quarta-feira passada, a queda do ex-presidente Lucio Gutiérrez ¿ coronel da reserva que liderou a rebelião cívico-militar que derrubou o governo de Jamil Mahuad, em 2000 ¿ deixou o Equador sem Supremo Tribunal de Justiça, com um Congresso criticado pela maioria da população e um novo presidente, Alfredo Palacio (vice de Gutiérrez), não reconhecido pela comunidade internacional.

¿ Em 25 anos de democracia o Equador não conseguiu construir um estado moderno, sólido e democrático. Fomos governados por caudilhos populistas que atuaram como se o país fosse uma grande fazenda. Lutam por poder sem que o povo possa exercer seus direitos ¿ diz Patricia de la Torre, professora de ciências políticas da Universidade Católica do Equador.

A atual tragédia equatoriana começou em fevereiro de 1997, quando o presidente Abdalá Bucaram, líder do Partido Roldosista e do grupo musical Los Iracundos, foi deposto pelo Congresso por incapacidade mental para governar. Bucaram foi alvo de várias de denúncias de corrupção, anuladas este ano pelos membros do Supremo Tribunal designados em dezembro do ano passado por Gutiérrez, seu principal aliado político. O sucessor de Bucaram foi Fabián Alarcón, nomeado pelo Parlamento presidente interino para um período de 18 meses.

A situação se complicou quando Rosalía Arteaga, vice-presidente de Bucaram, considerou inconstitucional a nomeação de Alarcón e ocupou a Presidência por três dias. Finalmente, o Parlamento ratificou a nomeação de Alarcón, que convocou um plebiscito para confirmar a decisão parlamentar.

Constituição do país já foi reformada 17 vezes

Em agosto de 1998, o poder foi assumido por Jamil Mahuad que, 17 meses depois, em meio a uma disparada da inflação e do dólar, e após ter confiscado depósitos bancários, foi banido do poder por uma revolta de indígenas e militares comandada pelo então tenente-coronel Lucio Gutiérrez. O poder foi parar nas mãos do vice-presidente, Gustavo Noboa que, em janeiro de 2003, entregou a Presidência a Gutiérrez, eleito com mais de 50% dos votos.

Para Patricia de la Torre, ¿um país que nos últimos 170 anos reformou 17 vezes sua Constituição é um país no qual existe uma democracia de direito mas não de fato¿.

¿ Somente agora os equatorianos, basicamente os moradores de Quito, estão exercendo seus direitos. Até então, havia entre os governantes e os equatorianos um relacionamento feudal, de dominação ¿ diz ela, entusiasmada com a rebelião de moradores da classe média de Quito, que saiu às ruas para exigir a renúncia de Gutiérrez.

Patricia acrescenta:

¿ Passado o terremoto, agora temos de pensar em reconstruir as instituições de nosso país. Temos de reformar as leis eleitorais e as leis que regem os partidos políticos. Chega de caudilhos autoritários.

O analista Francisco Borja diz que os equatorianos ¿elegeram presidentes corruptos, incompetentes e autoritários, que condenaram o país à decadência das instituições políticas¿.

¿ O povo está cansado de tanta imoralidade. Os futuros presidentes do Equador devem ser pessoas honestas, caso contrário a história de Bucaram, Mahuad e Gutiérrez voltará a se repetir ¿ diz.