Título: `Ir para os Estados Unidos é quase um rito de passagem¿
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Fonte: O Globo, 26/04/2005, O País, p. 4

NOVA YORK. As redes de brasileiros já instalados nos Estados Unidos facilitam a chegada de novos imigrantes e a tendência é que cresça em progressão geométrica o número de pessoas tentando passar ilegalmente pela fronteira, diz a professora Cleménce Jouet Pastré, co-presidente do Comitê de Estudos Brasileiros e diretora do Departamento de Línguas da Universidade de Harvard. Para ela, que está preparando um livro sobre imigração, os dramas dos brasileiros presos vão continuar se não houver ação policial e campanha de informação.

Por que triplica o número de brasileiros tentando passar a fronteira dos EUA num momento em que o Brasil está crescendo?

CLEMÉNCE JOUET PASTRÉ: Acho que as redes explicam este crescimento da migração brasileira. É a mesma coisa com qualquer fluxo migratório. Os parentes que já estão aqui mandam dinheiro, têm as informações a passar. Na medida que essas redes ficam mais fortes, chega mais gente porque fica mais fácil para elas saírem do Brasil e chegar aqui. É uma rede cultural que se forma. Como no México, em algumas cidades do Brasil já faz parte da cultura migrar para os Estados Unidos. Chega a uma certa idade, os rapazes se sentem obrigados a ir para os Estados Unidos, é quase um rito de passagem. Acho que o Brasil está chegando a este ponto em algumas cidades, como Criciúma e Governador Valadares.

Isso significa que a chegada de novos imigrantes tende a acontecer numa progressão geométrica?

CLEMÉNCE: Infelizmente é. Fatores econômicos e psicológicos explicam o início da imigração: a desilusão com os vários planos econômicos, o sentimento de que o país não dá certo. No governo Collor, começou um movimento grande de imigração mas depois disso continuou crescendo porque passou a ser uma questão cultural mesmo. Os imigrantes não gostam de contar histórias de fracasso, preferem a versão do sucesso mesmo se isso só acontece com um em 200. A partir de 2003, o número de prisões explodiu. E os problemas vão se acumulando. Um dos mais dramáticos é o dos filhos.

Mas mal ou bem os filhos não conseguem estudar e ter chances melhores?

CLEMÉNCE: Esta é uma das coisas mais dramáticas. As crianças vêm pequenas, trazidas pelos pais, vão à escola e passam a ter todo o referencial nos Estados Unidos, já nem lembram mais do Brasil. Só que são ilegais aqui. Têm direito à educação básica ¿ pelo menos por enquanto, o fato de ser ilegal não atrapalha: elas podem ir à escola e, se os pais não levarem, o juiz manda botar na escola. Mas quando chega a hora de ingressar no sistema universitário, elas não podem mais estudar porque não têm documentos e a escola vai exigi-los. Adolescentes brilhantes são impedidos de continuar estudando, e aí a frustração é enorme. Saem da escola, entram em gangues, criam problemas dramáticos, envolvem-se com drogas e violência. E os pais têm o discurso de que imigraram para dar um futuro melhor ao filho.

O que dá para fazer?

CLEMÉNCE: Informação e ação policial. Prender os agenciadores de pessoas, porque trata-se de tráfico de pessoas. No Brasil, são chamados de cônsul, que têm ligação direta com os coiotes, os mexicanos que fazem a travessia na fronteira. É toda uma máfia. Ao mesmo tempo, fazer uma campanha de esclarecimento.