Título: `LIVRE COMÉRCIO PODE FAZER BRASIL CRESCER 8%¿
Autor: Luciana Rodrigues e Flávia Oliveira
Fonte: O Globo, 26/04/2005, Economia, p. 23

Economista americano diz que liberalização comercial poderia injetar US$100 bilhões anuais na economia do país O governo brasileiro chegou a afirmar que tirou a Alca da pauta e os EUA têm demonstrado pouco interesse. A Alca ainda é viável?GARY HUFBAUER: A minha previsão é que tanto o Brasil como os Estados Unidos vão colocar a Alca no topo de suas agendas em 2006. Os dois países estão aguardando para ver o que o outro tem a oferecer na Rodada de Doha (no âmbito da Organização Mundial do Comércio, a OMC). Lembrem-se de que o verdadeiro prazo final sempre foi 2007, quando expira a TPA (sigla em inglês para a autorização que o congresso americano conferiu ao presidente George W. Bush para negociar acordos de comércio). Liberalizar o comércio e o investimento é um ingrediente fundamental para que o Brasil cresça a um ritmo de 6% a 8% ao ano, em vez de 3% a 5%.Os Estados Unidos têm dado prioridade a acordos bilaterais. Essa é uma maneira mais fácil de ampliar o comércio do que as negociações em bloco? HUFBAUER: Esses acordos são muito mais fáceis e rápidos do que um consenso com 34 países (na Alca) ou 150 nações (na OMC), ajudam a acelerar as negociações da OMC e a tornar mais amplo seu escopo. Mas há algumas desvantagens. Uma rede de acordos bilaterais inevitavelmente tornará a vida das empresas mais complicada. Elas terão que lidar com condições de acesso e tarifas variando de mercado para mercado. O Brasil tem negociado paralelamente com a Alca e com a União Européia (UE) a criação de áreas de livre comércio. A aproximação com um determinado bloco facilita, apressa a negociação com outro?HUFBAUER: O Brasil está adotando uma estratégia excelente. Quanto mais parceiros o país procurar, melhor.Qual é a sua avaliação sobre a política externa de Lula? E a de Bush? Há semelhanças?HUFBAUER: Até agora, a política comercial tem tido um papel secundário na agenda econômica do Brasil. O mesmo ocorre com o presidente Bush. Os dois países negociaram acordos menores, os dois são líderes na OMC e a Alca depende integralmente de um entendimento entre Estados Unidos e Brasil. Acredito que o comércio externo vai ganhar um destaque muito maior nas agendas de Brasília e Washington. O Brasil é um dos líderes do G-20 e tem procurado negociar acordos com outros emergentes, como China e Índia. Essa é uma boa estratégia?HUFBAUER: A cooperação entre Brasil e outros emergentes tem um componente muito mais político do que econômico. Isso é bom. Mas o componente político está condenado à morte se o seu foco for 100% fazer oposição aos Estados Unidos, à Europa e ao Japão.O Brasil não conseguiu emplacar seu candidato, o embaixador Luiz Felipe Seixas Corrêa, na disputa pela OMC. O que deu errado?HUFBAUER: Eu fiquei perplexo quando o Brasil decidiu indicar Seixas Corrêa. Ele certamente é capaz, porém não é nem de longe conhecido nos círculos da OMC como são Pascal Lamy (o candidato francês) ou Perez del Castillo (uruguaio). Pascal Lamy parece liderar a disputa. Ele é a melhor opção para os emergentes?HUFBAUER: A União Européia é fundamental para o sucesso da Rodada de Doha. Lamy é o melhor candidato para defender, na Europa, as reformas difíceis, porém necessárias. E provavelmente nos Estados Unidos também. Os países em desenvolvimento conseguiram importantes vitórias na OMC, como no caso do algodão e do açúcar. Pode haver novas disputas? Até que ponto essas ações são vantajosas? HUFBAUER: Novas disputas em arroz, soja ou laranja, podem se tornar tanto um estímulo como um desvio (para as negociações comerciais). Ou talvez até um pouco de ambos. O caso do algodão foi uma vitória tão contundente que deverá moldar as reformas nos subsídios agrícolas de Europa e Estados Unidos. O Brasil pode até entrar com um ou mais casos para reforçar e ampliar os entendimentos legais já obtidos no algodão contra os EUA e no açúcar contra a UE. Mas tenho dúvidas se seria útil, do ponto de vista tático.As barreiras não-tarifárias serão o principal obstáculo ao comércio mundial no futuro?HUFBAUER: Para a próxima década ou mais à frente, as barreiras não-tarifárias são a questão chave. Entre 60% e 75% de nossas economias estão no setor de serviços, e nessa área as barreiras não-tarifárias ditam as regras do jogo. É por isso que precisamos começar agora a agenda de barreiras não-tarifárias, na OMC e na Alca.O senhor já estudou as perdas dos EUA com protecionismo. Chegou a alguma cifra?HUFBAUER: Minha estimativa é que a abertura total do comércio e do investimento no mundo acrescentaria US$500 bilhões, ou 4%, ao PIB (Produto Interno Bruto, soma de tudo o que é produzido por um país ao longo de um ano) dos Estados Unidos. Para o Brasil, uma análise semelhante poderia facilmente chegar a US$100 bilhões por ano (cerca de 15% do PIB). Considerando que, na média, os domicílios brasileiros têm três pessoas, é o equivalente a US$1.400 anuais por família. É um potencial enorme e os governos deveriam trabalhar por isso. O senhor estudou a crise cambial brasileira de 1999. Desde então, o Brasil se tornou um grande exportador. O país é hoje menos vulnerável a crises externas?HUFBAUER: A principal tarefa do Brasil daqui para frente não é mais criar uma blindagem anticrise via austeridade fiscal e política monetária, mas garantir o crescimento econômico, especialmente por meio de uma liberalização mais acelerada do comércio.